Conheça os efeitos do Acordo União Europeia–Mercosul sobre a competitividade da agropecuária na Europa e as reações dos agricultores
Acordo União Europeia–Mercosul reacende tensões no campo europeu e mobiliza produtores rurais

A aprovação do acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul, confirmada em 9 de janeiro pela maioria dos Estados-membros do bloco europeu, voltou a provocar forte reação entre agricultores de diversos países da Europa. Embora o entendimento seja visto por governos e setores industriais como estratégico para ampliar o comércio internacional, produtores rurais europeus seguem manifestando preocupação com os impactos sobre a competitividade e a sustentabilidade da agropecuária local.
Um acordo voltado à liberalização comercial
O acordo UE–Mercosul envolve Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, com possibilidade de adesão futura da Bolívia, e tem como principal objetivo a redução e, em muitos casos, a eliminação de tarifas de importação entre os blocos. A proposta busca facilitar o comércio de máquinas, equipamentos, produtos químicos, farmacêuticos e itens agropecuários, ampliando o fluxo de bens em um mercado que reúne centenas de milhões de consumidores.
Após cerca de 20 anos de negociações, o acordo foi anunciado inicialmente em 2019 e formalizado no fim de 2024. A etapa final, a ratificação pelos países da UE, foi concluída em janeiro de 2026, abrindo caminho para sua implementação gradual.
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Pressão competitiva preocupa agricultores europeus
Para organizações agrícolas da Europa, o acordo representa um risco direto ao equilíbrio do mercado interno. Produtores temem que a entrada de produtos agropecuários da América Latina, especialmente carnes e açúcar, amplie a concorrência com preços mais baixos, pressionando margens e colocando em desvantagem agricultores europeus.
O principal argumento das entidades do setor é a chamada concorrência desleal. Segundo elas, produtores do Mercosul não estariam sujeitos ao mesmo nível de exigências regulatórias impostas na UE, como normas rigorosas de bem-estar animal, uso de defensivos agrícolas e padrões ambientais, o que reduziria custos de produção fora da Europa.
Quotas e o impacto acumulado no mercado
A agricultura foi classificada como um setor sensível durante as negociações, o que resultou na criação de quotas para diversos produtos. Essas quotas não entram integralmente em vigor de forma imediata, sendo implementadas de maneira gradual, geralmente ao longo de cinco anos.
A Comissão Europeia costuma destacar que os volumes acordados representam pequenas parcelas da produção total do bloco. Já os produtores europeus avaliam o impacto de forma cumulativa, considerando o efeito combinado de diferentes acordos comerciais firmados pela UE ao longo dos últimos anos.
Carne de aves e ovos no centro do debate
No caso da carne de aves, foi estabelecida uma quota isenta de tarifas de 180 mil toneladas, o equivalente a cerca de 1,3% da produção anual europeia. Para a indústria do setor, no entanto, o efeito prático pode ser mais expressivo. A associação europeia de aves (Avec) estima que a participação de produtos importados no consumo europeu de carne de aves pode chegar a 9%.
Atualmente, mesmo sem considerar o Mercosul, mais de um quarto do filé de peito consumido na UE já tem origem fora do bloco, o que reforça as preocupações sobre a perda de espaço da produção local.
Carne bovina e suína: impactos regionais
O acordo prevê a entrada de até 99 mil toneladas de carne bovina do Mercosul com tarifas reduzidas, volume que corresponde a cerca de 1,5% da produção europeia. Estudos de impacto realizados pela Universidade e Centro de Pesquisa de Wageningen indicam que países como a Holanda podem ser significativamente afetados, com projeção de redução de até 15,6% no valor da produção de carne bovina até 2040.
Para a carne suína, a quota estabelecida é de 25 mil toneladas com tarifa reduzida, o que representa aproximadamente 0,1% da produção total da UE, impacto considerado mais limitado em termos agregados.
Exigências específicas para ovos
Os ovos receberam um tratamento diferenciado no acordo. Além do cumprimento das normas europeias de segurança alimentar, os ovos frescos só poderão ser importados sem tarifas caso a produção também respeite os padrões europeus de bem-estar animal para galinhas poedeiras.
Essa exigência é considerada incomum em acordos de livre comércio, já que critérios de bem-estar animal raramente são incorporados de forma explícita. Ainda assim, a regra se aplica apenas aos ovos frescos, não abrangendo todos os produtos derivados.
Mecanismo de salvaguarda e críticas do setor
No final de 2025, foi incluído um mecanismo de segurança que permite à UE intervir caso importações adicionais provoquem oscilações significativas de preços no mercado europeu. Organizações agrícolas, entretanto, avaliam que essa ferramenta é insuficiente para proteger os produtores diante de um cenário de maior abertura comercial.
Proteção de denominações regionais
Outro ponto relevante do acordo é o reconhecimento e a proteção oficial de denominações regionais europeias nos países do Mercosul. Com isso, a utilização de nomes tradicionais ligados a produtos específicos da Europa passa a ser proibida na América do Sul, reforçando a proteção da identidade e do valor agregado desses alimentos.
Apesar desse avanço, o debate sobre os impactos do acordo UE–Mercosul permanece intenso no campo europeu, evidenciando o desafio de conciliar liberalização comercial, segurança alimentar e sustentabilidade da produção agrícola.
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