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Beliscos após a tempestade

Por Coriolano Xavier, membro do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS) e Professor da ESPM.

Beliscos após a tempestade

Em inglês, snack é o nome daquele alimento casual que comemos a qualquer momento do dia e por aqui chamamos de “belisco” ou “lanchinho”. O lançamento de snacks no mercado tem uma taxa de sucesso ao redor de 60%, nível superior a qualquer outra categoria de alimento. Por sua própria natureza, o snack tem chance maior de impacto pela forma, sabor, inovação de design ou marketing. Mas mesmo considerando tudo isso, sua taxa de sucesso é invejável, o que indica prontidão positiva das pessoas com relação ao produto.

Na cultura alimentar as refeições estão associadas a momentos específicos do cotidiano. O snack vingou um pouquinho diferente, pois seu conceito original de consumo está associado à mobilidade e ação. Comer em movimento ou fazendo alguma coisa, no trabalho ou no lazer. Comer “on the go”, dizem os norte-americanos. Mas a pandemia pode estar ampliando essa percepção de consumo.

Na China e Espanha, por exemplo, observou-se aumentos de 17% e 74% na procura por esse tipo de alimento nos períodos de quarentena. No Brasil as vendas cresceram cerca de 10%, enquanto grandes empresas multinacionais com atuação assertiva no marketing global de snacks avançaram 7% no primeiro trimestre do ano, em pleno choque da covid-19 (lembrando que a pandemia emergiu primeiro na Ásia e Hemisfério Norte).

Pode ser que o coronavírus esteja empurrando o consumo de snacks para dentro de casa também. Rápido e prático, o produto tem nessa conveniência um forte apelo e ainda responde ao natural interesse do consumidor por alimentos novos, diferentes e acessíveis (em geral é percebido como um gasto pequeno). Com esses pilares, cai como uma luva no gosto das gerações mais jovens e já se observou, em pesquisa, que mais de 60% dos entrevistados da Geração Y (nascidos de 1981 a 1996) declaram substituir eventualmente refeições por snacks.

A pandemia deixará uma pauta de saudabilidade em todo o planeta. O “alimento saudável” já vinha sendo escolha alimentar crescente e, agora, tudo indica que a tendência vai se acelerar e se fortalecer na consciência do consumidor. Mas nem por isso o fôlego do snack vai ser, necessariamente, enfraquecido. Já há uma geração ascendente de snacks fit ou saudáveis, desenvolvidos com cereais, frutas desidratadas e nozes, por exemplo – segmento no qual o setor espera obter crescimentos na casa dos dois dígitos, nos próximos anos.

Os tempos de pandemia são complexos, ambíguos e incertos. Após a tempestade, tudo pode voltar ao padrão anterior. Mas não creio. Traços de mudança devem ficar e daí será oportuno colocar os snacks no radar do agronegócio, pois podem gerar impactos e oportunidades em toda cadeia produtiva, inclusive no dentro da porteira. Tempos atrás, por exemplo, produtores de uva da Califórnia, reunidos em uma associação, lançaram o conceito da uva passa como snack (“California Raisins”), marcando um grande sucesso nesse mercado norte-americano.  

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