Veja o que os produtores devem fazer, segundo analistas de mercado.
Agronegócio vive incertezas no Brasil
Redação (14/10/2008)- Da mesma forma que os demais setores da economia, o agronegócio passa por momento de incerteza. A crise da economia norte-americana, que repercute no mundo, ainda não afetou diretamente o agronegócio, mas os reflexos virão e os produtores devem estar atentos para evitar que a rentabilidade do seu negócio seja consumida pela elevação dos custos.
A redução do crédito impacta as exportações e também no financiamento das atividades agrícolas e é uma das preocupações do setor. O alto custo dos insumos, principalmente do fertilizante é outra preocupação. A queda no preço do petróleo vem sendo pouco sentida por conta da alta do dólar. Os produtores devem reduzir os custos, mas de maneira dosada, de forma a impedir que o menor uso de tecnologia e insumos comprometam a produção e produtividade.
O agravamento da crise tende a provocar queda na cotação das commodities. Entretanto, o impacto nos preços das commodities agrícolas deve ser menor do que os do petróleo e dos minerais para uso de bens duráveis, explica o engenheiro agrônomo, especialista em Administração Rural, Enio Bergoli.
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Bergoli, que é secretário estadual de Gerenciamento de Projetos, lembra que no agronegócio a repercussão da crise vem mais tarde porque, com a perda de renda da população, a tendência inicial das pessoas é frear os gastos com os bens de consumo, como trocar o carro ou comprar um eletrodoméstico novo. O corte nos gastos com alimentação é a última coisa que as pessoas fazem, destaca.
O agronegócio no Brasil, e por tabela o Espírito Santo, é detentor de conhecimento e de tecnologia e, na avaliação de Bergoli, tem condições de enfrentar a crise melhor do que qualquer outra região do mundo. Mesmo assim, lembra que o reflexo da crise não é o mesmo para todos os produtos. "Cada mercado para um determinado produto agrícola tem um comportamento e, em meio à crise, há distorções difíceis para se prognosticar", argumenta.
A crise, destaca, vai popularizar no meio rural o termo "agroinflação". Na prática, significa menor renda líquida para o produtor por conta da alta do dólar da elevação dos custos. E aqueles que não estiverem atentos aos custos poderão ver "sumir" a renda líquida de sua propriedade, que será poderá ser devorada pela agroinflação.
"Os impactos virão para o agronegócio, mas no Espírito Santo os reflexos tendem a ser menores."
Enio Bergoli
Secretário de Gerenciamento de Projetos
Efeito na produção
Entenda a influência da crise financeira global em vários produtos agrícolas
Boi:
Num primeiro momento não há indicativo de baixa, mas é preciso ficar atento aos impactos da crise na Rússia e Leste Europeu, grandes compradores de carne bovina. O boi é um bom ativo para os pecuaristas que tendem a comercializar somente o necessário.
Frango:
Há projeção de aumento da produção em 2009, pelos investimentos já feitos. Se a crise se agravar, com recessão e queda de consumo lá fora, o segmento precisará de grande demanda interna para absorver a produção.
Mamão:
O quadro é bom para o mamão capixaba. Os preços no mercado externo não caíram e com a valorização do dólar melhorou a remuneração para o produtor e a situação favorece a exportação.
Álcool:
A queda do preço do petróleo tende a reduzir a demanda por biocombustíveis como o etanol brasileiro. Mas, com a valorização do dólar os preços do mercado internacional são superiores aos do mercado interno.
Café:
Os preços caíram no mercado internacional durante a crise, na mesma proporção que o dólar foi valorizado. Os preços para os agricultores permanecem estáveis até o momento. Os estoques nos países consumidores (importadores) estão na faixa dos 20 a 25 milhões de sacas e são considerados satisfatórios.
Frutas:
Sinal verde para as frutas de mercado interno como morango, goiaba, maracujá, abacaxi e banana, que seguem com os preços regulados pela oferta e demanda. A oscilação de preços, por enquanto, ocorre em função da sazonalidade da produção, não havendo correlação com a crise financeira.
Borracha:
O Brasil importa dois terços de suas necessidades. Com o dólar alto os preços devem subir, com reflexos positivos sobre o látex da seringueira. O quadro é favorável para os produtores.
Soja e milho:
Os estoques mundiais dos dois produtos estão baixos, indicando que a demanda continuará aquecida. A situação favorece os produtores brasileiros que tem os produtos armazenados. Os estoques mundiais de trigo também estão baixos, como o Brasil e o Espírito Santo importam o produto, a tendência é preços em alta, refletindo nos preços dos alimentos.
Para não perder com a turbulência
Veja as dicas para os agricultores nesse momento de incertezas
Como sobreviver à crise
Observar os custos está entre as dicas
Gestão
Priorizar a gestão do negócio, com controle rigoroso dos custos de produção. Observar os custos das várias culturas e em todas as etapas, desde o plantio até a colheita e reduzir o que for possível
Recursos
Otimizar o uso dos recursos internos da propriedade, como mão de obra, adubos orgânicos a partir de restos de culturas e dejetos de animais, dentre outros. Substituir, sempre que possível, os adubos orgânicos pelos químicos, como alternativa para diminuir os gastos
Comercialização
Comercializar em face das necessidades, sempre abastecendo o mercado. Nunca especular num momento de risco e incertezas. O produtor deve vender somente a quantidade suficiente para fazer a receita que ele precisa
Investimentos
Evitar novos investimentos e somente iniciar novas atividades se todos os recursos já estiverem garantidos. Deve-se priorizar os investimentos em andamento. Em momento de crise não é recomendável tomar empréstimo para iniciar novas atividades
Cooperativas
Valorizar o cooperativismo e realizar aquisições de insumos e vendas de produto de forma coletiva para reduzir custos e ampliar preços de produtos. Se possível, formar grupos também para a venda dos produtos.
Análise
Produtor sai perdendo
Ewerton Luiz Xavier
Diretor Executivo do Centro de Desenvolvimento do Agronegócio (Cedagro)
Historicamente, em períodos de crise, o produtor sempre sai perdendo. Ainda não dá para saber como essa crise afetará a produção agrícola. O ideal seria que o produtor tivesse maior conhecimento e controle a respeito dos custos. É preciso que os agricultores utilizem as ferramentas disponíveis para saber qual custo de sua atividade e o que pode ser feito para trabalhar a redução. A margem de lucro depende do peso do custo. O transporte, por exemplo, é um ponto de estrangulamento e um dos fatores que mais pesam no custo das atividades. Quanto mais o produtor conseguir reduzir o custo, maior é sua margem de lucro.





















