O avanço do acordo entre Mercosul e União Europeia marca uma mudança estrutural no posicionamento do agronegócio brasileiro no comércio internacional. Mais do que redução tarifária, o tratado consolida uma nova arquitetura regulatória, na qual atributos como rastreabilidade, sustentabilidade e conformidade sanitária passam a ser determinantes para acesso a mercados de alto valor agregado.
A avaliação é de Jogi Humberto Oshiai, que acompanha as negociações diretamente de Bruxelas, centro decisório europeu. Segundo ele, o Brasil deixa de competir prioritariamente por preço e passa a ser avaliado por critérios técnicos e ambientais, com impacto direto em cadeias como avicultura e suinocultura.
Avicultura e proteína animal enfrentam desafios estruturais
No segmento de proteína animal, três pilares concentram os principais desafios: sanidade, sustentabilidade e rastreabilidade. O reforço nos controles de enfermidades, como influenza aviária, e o monitoramento rigoroso de contaminantes e resíduos são exigências já consolidadas no mercado europeu.
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No campo ambiental, ganham relevância práticas como gestão de resíduos, uso eficiente de recursos hídricos e redução da pegada de carbono. Já a rastreabilidade exige sistemas integrados capazes de acompanhar toda a cadeia produtiva, da granja ao consumidor final, elevando o nível de governança e transparência.
ESG passa de diferencial a requisito de mercado
A agenda ESG consolida-se como eixo central da competitividade global. Normativas europeias, como regras contra desmatamento e exigências de comprovação de origem, já impactam exportadores brasileiros, independentemente da formalização definitiva do acordo.
Nesse contexto, práticas como bem-estar animal, eficiência energética e transparência de dados auditáveis deixam de ser diferenciais e passam a ser condições básicas de acesso ao mercado europeu. A tendência é de intensificação dessas exigências nos próximos anos.
Ambiente político europeu ainda impõe incertezas
Apesar do avanço institucional, a ratificação do acordo ainda depende de fatores políticos internos na União Europeia. Países como a França mantêm resistência, especialmente em função de pressões sobre o setor agropecuário local. Ainda assim, a avaliação predominante é de avanço gradual, com ajustes regulatórios ao longo do processo.
A Política Agrícola Comum segue como elemento relevante, ao sustentar a competitividade dos produtores europeus, exigindo do Brasil estratégias baseadas em eficiência e agregação de valor.
Oportunidades e pressão competitiva nas cadeias do agro
Entre os segmentos com maior potencial de ganho estão avicultura, suinocultura (com acesso ainda restrito), além de produtos com maior diferenciação, como frutas, café e pescados. Por outro lado, cadeias como carne bovina, soja e açúcar tendem a enfrentar maior pressão competitiva, especialmente diante das exigências ambientais e de rastreabilidade.
Estratégia passa por antecipação e presença institucional
A análise indica que o principal desafio do agro brasileiro é antecipar exigências e transformar conformidade regulatória em vantagem competitiva. A presença institucional em centros decisórios, como Bruxelas, e o fortalecimento da governança nas cadeias produtivas são apontados como fatores estratégicos.
Em um cenário global marcado por reconfiguração geopolítica e maior rigor regulatório, o acordo Mercosul–União Europeia tende a consolidar um novo padrão de competitividade, no qual confiança, transparência e sustentabilidade definem o acesso e a permanência nos mercados internacionais.