Investidores ainda veem com risco financiamento à agricultura. Mas aumento dos preços das terras pode mudar isso. Para fundos, setor é um bom negócio.
Agricultura ainda gera desconfiança

Soa como o próprio paraíso para investidores: um setor que vale estimados 10% da produção da economia mundial, com demanda suficiente para puxar um aumento da produção projetado em 70% até 2050. Mas a agricultura – o ponto de partida de uma cadeia alimentar que terá de nutrir 9 bilhões de pessoas até meados do século – deixou cicatrizes em alguns grandes participantes de sucesso do universo dos investimentos. Muitos encaram agora com desconfiança um setor que fica à mercê de instabilidade climática, risco político e governos aventureiros.
A atitude marca uma reviravolta em relação a poucos anos antes da crise financeira de 2008, quando o Morgan Stanley comprou lotes de terra agrícola na Ucrânia, a Altima Partners queria criar “a primeira ExxonMobil do setor agrícola” e Crispin Odey, diretor do fundo de hedge Odey Asset Management, pregou: “Venda bancos, compre queijo”.
Atualmente o apetite para recorrer ao setor continua sólido, mas moldado por advertências decorrentes das operações fracassadas daqueles anos de maior risco. Essa restrição é um breque para muitos dos que mais precisam de financiamento: 85% da produção vem de pequenos proprietários rurais, muitos dos quais têm necessidade de se expandir e aprimorar a tecnologia.
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“Os produtores rurais enfrentam dificuldades para obter financiamento dos bancos e procuram fontes alternativas”, diz Ashley Clarke, diretor associado da assessoria empresarial Grant Thornton. Richard Ferguson, diretor da Masdar Farming, qualifica a agricultura de “a última grande industrialização”. É um processo que, segundo ele, demorará de 20 a 30 anos para acontecer, em boa medida refletindo o que ocorreu com o setor petrolífero por mais de um século: com propriedades rurais de menor porte reunindo forças e se tornando corporações.
A Rússia e a Ucrânia ilustram o processo. Pelos ditames das reformas instituídas após o colapso da União Soviética, as fazendas coletivas passaram para as mãos de centenas de indivíduos; diante disso, um terço da terra deixou de produzir.
As aquisições corporativas começaram, para valer, em 2002. Ferguson se lembra de uma empresa agrícola que ostentava 70 advogados em seu quadro de 1,6 mil funcionários, cujo tempo era gasto comprando parcelas individuais de extensões de terra. Elas formaram a base de alguns dos grandes grupos atuais com ações em bolsa, como o Cherkizovo e a Black Earth Farming.
Mas o descompasso entre as expectativas dos que tentam obter capital e os que o fornecem está emperrando o fluxo de investimento. Uma consultoria ilustra o escancarado vácuo de financiamento existente com o caso de um fundo de hedge de Nova York que fez as avaliações de contas com vistas à compra de um grande projeto agrícola no Brasil. O fundo acabou desistindo do negócio ao perceber que apenas ganharia o devido fluxo de caixa positivo “um mês por ano”, dado que a colheita ocorre também uma vez por ano. Outras questões fazem os investidores parar para pensar. A agricultura é fragmentada, de pequena escala e localizada, e projetos isolados são considerados arriscados demais.
Em vez disso, os investidores estão apostando no crescimento do setor via equipamentos e tecnologia, com a compra de ações como a da fabricante de tratores John Deere ou a fornecedora de sementes Syngenta.
A escassez desses grupos com ações registradas em bolsa também explica os desenfreados múltiplos colhidos pelas que efetivamente existem – os papéis do grupo de genética animal Genus, com ações no Reino Unido, são negociados a 26 vezes os lucros previstos. Em contrapartida, existe um cemitério de tamanho considerável de ações agrícolas que despencaram como as da Asian Citrus e as da Asian Bamboo.
Assim, investidores estão prospectando maneiras de tornar a atividade agrícola algo mais investível. Entre os modelos estão associar os agricultores em cooperativas. O modelo também é proveitoso para captação de recursos. As cooperativas agrícolas podem se aglutinar para investir em processamento ou refino. A cooperativa neo-zelandesa de leite e derivados Fonterra captou no ano passado 525 milhões de dólares neo-zelandeses por meio de um novo fundo, referenciado em seu desempenho financeiro. O registro em bolsa transformou a Fonterra na maior empresa da Nova Zelândia.
Mas outros analistas arrolam contrapontos a essas histórias de sucesso, como os da Landkom, Asian Citrus e da Black Earth Farming. Esta última foi formada para investir na produção russa de grãos e possui um banco de terras maior do que Luxemburgo, mas o lucro encolheu em cada um dos últimos cinco anos, num desempenho qualificado pela empresa como “decepcionante”.
A Landkom, que entrou na bolsa em 2007 e, por causa da crise financeira teve que se desvencilhar das ambições de expandir seu banco de terras; comprou em seguida o maquinário errado e amargou uma safra precária de canola – até ser comprada a preço de banana.
Clarke, da Grant Thrnton, vê mais atratividade em outras partes da Europa. Lá os investidores podem ganhar retornos sobre o capital de 1% a 2%, diante da valorização da terra que, no Reino Unido, por exemplo, dobrou nos últimos cinco anos.
Jürgen Siemer, analista-sênior da Sustainable Asset Management, concorda. “O preço da terra está subindo. Assim, investimentos na agricultura tornam-se mais atraentes, e há mais lucro a computar”.
Em 1993, quando a operadora de telefonia móvel Orange surgiu, não previa computar lucros por seis anos (ao que se revelou, ela gerou um lucro minúsculo em um, dentre sete anos). Em 2000, estava entre os cinco grupos do Reino Unido que desembolsaram US$ 22 bilhões ou mais por concessões de operação de 3G -, o que empurrou as metas ainda mais para a frente.
A atividade pode ter um horizonte ainda mais distante. Kim Wagner, sócio do Boston Consulting, diz que os agricultores medem em gerações. Seu colega Decker Walker acrescenta: “A criação de valor nesse setor tem sido fabulosa”. Não é coisa que investidores diziam sobre as telecomunicações em 2000.
Para fundos, setor é um bom negócio
Os investidores na agricultura são de todos os matizes. Estão entre eles governos, como o de Cingapura em Jilin, no nordeste da China, empresas de compras de participações e fundos de pensão, cujos horizontes de longo prazo se harmonizam bem com os da atividade agrícola.
Parte disso é polêmica, especialmente a assim chamada “captação de terra” por países pobres em recursos naturais em regiões mais pobres. Foi assim que a sul-coreana Daewoo Logistics foi obrigada em 2009 a abandonar um projeto de arrendamento de 404,69 mil hectares de terra em Madagascar para produzir milho. A ONG Grain cita 416 “captações de terra” de grande escala por investidores estrangeiros para produzir alimentos, totalizando quase 35 milhões de hectares, entre 2006 e 2012.
Grandes fundos de pensão e fundos universitários de doações estão migrando para a agricultura e a exploração de madeira, enquanto as empresas de compras de participações também buscam um lugar na terra, segundo Kim Wagner, um dos sócios do Boston Consulting Group. “Todas as casas de compras de participações têm algum interesse em explorar o agronegócio”.
Entre elas está a AGR, da Califórnia (que cita George Washington, o primeiro presidente dos EUA, em seu site: “Não conheço qualquer atividade na qual serviços mais verdadeiros e importantes podem ser prestados a qualquer país do que a melhoria de sua agricultura…”).
Entre as administradoras de fundos estão a Colvin & Co., de Minnesota (slogan: “Possua um pedaço do coração da América”) e o Hancock Agricultural Investment Group, que administra quase US$ 1,7 bilhão em terras nos EUA para investidores institucionais.





















