Estiagem da última década prejudica produtividade do agronegócio e encarece energia, aponta estudo
Chuvas abaixo da média reduzem R$ 80 bi por ano do PIB brasileiro

Seca, reservatórios de hidrelétricas em baixa, conta de luz mais cara e choque nos preços dos alimentos. Essas imagens, que se tornaram corriqueiras ao longo de 2021, apontam para um dado impactante: o Brasil perde, em média, R$ 80 bilhões do PIB (Produto Interno Bruto) por ano devido à falta de chuvas.
O cálculo é do economista Bráulio Borges, da LCA Consultores e do Ibre/FGV (Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas), e já considera efeitos da inflação no período.
Embora o quadro de chuvas tenha se revelado especialmente dramático em 2021, com graves meses de seca e ficando 26% abaixo da média (1980-2019), desde 2012, as chuvas no Brasil têm sido abaixo do esperado, em todos os anos exceto em 2013, segundo dados do Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia).
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“A baixa intensidade das chuvas é um dos ingredientes que contribuíram para a década perdida do PIB, mas que costumava ser ignorado”, diz Borges. “Geralmente, os maiores destaques são fatores internacionais e problemas de política econômica doméstica, como a nova matriz econômica.”
Precipitação anual

Variação da precipitação, em relação à média 1980-2019

Uso de água por pessoa

O Brasil foi de um extremo ao outro em um intervalo de tempo curto: na década anterior, entre 2002 e 2011, o saldo foi inverso, com as chuvas acima da média histórica em nove dos dez anos.
Segundo Borges, ao se considerar os efeitos diretos e indiretos da escassez de chuva, o impacto acumulado no PIB no período de 2012 a 2021 é de 17%, em termos reais.
Caso a situação fosse outra, a inflação no período seria menor, e o PIB nominal deste ano, maior. A projeção atual é que chegue a R$ 8,7 trilhões, mas sem os choques que ocorreram, poderia estar indo para R$ 9,5 trilhões.
Trata-se de uma diferença de R$ 800 bilhões —ou de R$ 80 bilhões por ano, na média, para o período, explica o economista.
Dos R$ 80 bilhões perdidos por ano, R$ 50 bilhões são pelos efeitos diretos da falta de chuvas, como no caso da produtividade da atividade agropecuária e da energia mais cara, que provoca um choque de custos para a economia como um todo.
Borges explica que esses efeitos sobre a economia são como uma bola de neve: com a falta de chuvas reduzindo a produtividade agrícola e tornando a energia mais cara, o PIB cresce menos, gerando esse choque.
De forma indireta, a energia mais cara também reduz a renda das famílias, sobretudo por ser um gasto mais difícil de contornar, e elas acabam podendo consumir menos outros itens. A falta de chuvas afeta, ainda, o turismo e as hidrovias.
As empresas também perdem fôlego e capacidade de investimento, a energia impacta na inflação e a política monetária acaba ficando mais restritiva, com a alta dos juros.
Projeções do Banco Mundial trazem um cenário preocupante sobre as precipitações em diferentes países, a partir de cenários para emissões de gás de efeito estufa. Na maior parte deles, o Brasil vai continuar mais seco pelos próximos anos, com chuvas 10% abaixo da média
Além disso, um relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) deste ano aponta que, enquanto a intensidade das chuvas deve crescer em algumas regiões, aumentos de seca são esperados em outras, como o sudoeste da América do Sul.
“Isso só reforça a prescrição de reduzir a dependência da hidroeletricidade, que deve acontecer a passos largos, para tirar essa restrição da frente e o país poder crescer com menos risco de suprimento de energia”, diz Borges.
A matriz hidrelétrica representa hoje cerca de 63,5% do total, segundo o Ministério de Minas e Energia. “As energias eólica e fotovoltaica têm custos cada vez mais próximos da hidrelétrica. É preciso caminhar no sentido de que a matriz fique em um terço para hidrelétricas, o outro para eólica e sola e o restante para termelétricas.”
“Isso vai acontecer naturalmente, já que os principais pontos para instalação de hidrelétricas estão ocupados”, avalia Armando Castelar, coordenador de economia aplicada do Ibre/FGV. “A expansão se dará na margem em outros tipos de usina, e o impacto da seca vai estimular mais ainda esse movimento.”

Do ponto de vista do agronegócio, os impactos da seca e da geada se fizeram sentir na queda de 8% do PIB do terceiro trimestre, divulgado na última semana pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Além de fatores sazonais, os choques climáticos prejudicaram o plantio.
“A realidade do agronegócio em todo o mundo —e especialmente no Brasil— vai ser produzir mais com cada vez menos água e impactos ambientais. Não é algo para o futuro, mas para agora”, diz Paulo Camuri, economista sênior do WRI Brasil.
O Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) destaca que não tem governança das águas, mas diz acompanhar o cenário meteorológico para análise e estimativa de safras agrícolas.
Em outubro, o ministério lançou o Programa Nacional de Manejo Sustentável do Solo e da Água em Microbacias Hidrográficas, o Águas do Agro. “A meta é promover o desenvolvimento sustentável no meio rural, por meio da adoção de tecnologias e práticas de conservação de solo e água.”
Borges ressalta que, além de iniciativas pontuais, o país deveria adotar um pacote de investimentos verde, nos moldes dos países desenvolvidos. O BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) estima que o Brasil poderia gerar até 7 milhões de empregos da transição energética.
“Seria um caminho para contornar o problema da falta de chuvas e da recuperação da economia após a pandemia, mas é preciso liderança e coordenação para atrair capitais. O que a gente vê hoje, infelizmente, é negacionismo na agenda climática.”





















