Fonte CEPEA
Milho - Indicador Campinas (SP)R$ 72,02 / kg
Soja - Indicador PRR$ 120,77 / kg
Soja - Indicador Porto de Paranaguá (PR)R$ 127,12 / kg
Suíno Carcaça - Regional Grande São Paulo (SP)R$ 10,17 / kg
Suíno - Estadual SPR$ 6,97 / kg
Suíno - Estadual MGR$ 6,76 / kg
Suíno - Estadual PRR$ 6,65 / kg
Suíno - Estadual SCR$ 6,65 / kg
Suíno - Estadual RSR$ 6,81 / kg
Ovo Branco - Regional Grande São Paulo (SP)R$ 182,85 / cx
Ovo Branco - Regional BrancoR$ 200,46 / cx
Ovo Vermelho - Regional Grande São Paulo (SP)R$ 208,09 / cx
Ovo Vermelho - Regional VermelhoR$ 223,39 / cx
Ovo Branco - Regional Bastos (SP)R$ 174,01 / cx
Ovo Vermelho - Regional Bastos (SP)R$ 201,78 / cx
Frango - Indicador SPR$ 7,00 / kg
Frango - Indicador SPR$ 7,01 / kg
Trigo Atacado - Regional PRR$ 1.224,33 / t
Trigo Atacado - Regional RSR$ 1.090,60 / t
Ovo Vermelho - Regional VermelhoR$ 227,05 / cx
Ovo Branco - Regional Santa Maria do Jetibá (ES)R$ 196,95 / cx
Ovo Branco - Regional Recife (PE)R$ 187,56 / cx
Ovo Vermelho - Regional Recife (PE)R$ 197,23 / cx

Crise global e o agronegócio brasileiro

Segundo o ex-ministro da Agricultura e atual coordenador na GV Agro, Roberto Rodrigues, o que falta para o agronegócio brasileiro é articulação e interação entre as cadeias. Somente a união entre os segmentos e o apoio alinhado dos setores público e privado é que poderão dar forças para o Brasil não se abater pela crise.

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Redação (15/12/2008)- No meio de tanta turbulência econômica, gerada pela crise financeira americana, e com a incerteza de um mercado, pelo menos, estável, o Anuário da Avicultura Industrial e Suinocultura Industrial falou com o ex-ministro da Agricultura e atual coordenador da GV Agro, Roberto Rodrigues, sobre as ansiedades e perspectivas do agronegócio brasileiro para o ano de 2009. Em sua sala, no prédio da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo (SP), Rodrigues, categoricamente disse que, antes de qualquer prognóstico a curto, médio ou longo prazos, o agronegócio brasileiro precisa ter articulação e interação. “É o que falta para o nosso setor”. Calmo e com a sabedoria acumulada por décadas dedicadas à agricultura, o ex-ministro falou que, no momento (esta entrevista foi realizada no início de novembro), o Brasil sofre por estar com uma safra mais cara e ter menos crédito rural. “Este cenário reflete em duas conseqüências imediatas: a redução da área plantada e a redução do padrão tecnológico agrícola”, analisa. “E a redução do padrão tecnológico pode levar a uma queda da produtividade rural”.

Sobre a crise econômica mundial, Rodrigues acredita que o Brasil terá um ano de 2009 com alguns ajustes e encolhimentos. “Esta crise não durará mais que dois anos”, afirma. “Eu acredito que o ano de 2010 será o grande ano para o Brasil no agronegócio”. Confira o porquê deste otimismo de Roberto Rodrigues e seus alertas para a necessidade de a cadeia produtiva agrícola ficar cada vez mais unida e fortalecida na íntegra da entrevista, a seguir.

 

Suinocultura Industrial – A atual crise financeira global tem deixado muitos especialistas temerosos quanto à manutenção do crescimento da economia brasileira. Para os mais otimistas o Brasil reúne condições para sair “relativamente” ileso da crise. Para outros, os reflexos serão fortes. Sabe-se que o setor agropecuário é responsável por 40% do PIB brasileiro. Na opinião do senhor, quais são os possíveis desdobramentos que a crise no sistema financeiro pode trazer para a economia brasileira e para o agronegócio em particular?

Roberto Rodrigues – O conceito em torno disso tudo é que toda crise gera problemas, mas também gera oportunidades. Então, depende muito do objeto da crise naquele que está sofrendo os seus impactos e de como ele reage e se ele vai transformar tudo isso em problemas ou oportunidades. No caso do agronegócio, eu penso que esta crise é uma grande oportunidade. Eu tenho viajado bastante para debater, sobretudo, a questão dos biocombustíveis, mas também o agronegócio brasileiro, em vários países do mundo. E tenho conversado com lideranças do setor rural, e do agronegócio, e também com gente do governo de diversos países. E eu estou entendendo o seguinte: as lideranças rurais dos países desenvolvidos estão convencidas de que os preços das commodities, que já caíram em dólar, não deverão subir muito no próximo ano. O que não é um problema para eles, sob o ponto de vista de atividade produtiva, porque todos eles têm seus preços de garantia, seus target prices, que garantem uma remuneração mínima. Então, o que me parece muito claro nas conversas com as lideranças rurais dos países desenvolvidos é que eles vão reduzir a produção no ano que vem. Isso significa que as safras do Hemisfério Norte em 2009 deverão ser menores do que as safras colhidas em 2008. Com reflexos óbvios na oferta de alimentos, em termos globais, para 2010. Então, esse é um quadro que parece bastante caracterizado neste momento. Tudo isso pode mudar lá na frente, mas, hoje, é o que me parece muito claro. Agora, vamos trazer a temática para o Brasil. No Brasil, estamos plantando uma safra um pouco mais complicada que as safras anteriores por duas razões: os custos estão maiores – calculamos que os custos médios subiram entre 30% e 40% em todas as culturas de verão plantadas no Brasil – e a oferta de crédito é menor. Quando os custos são maiores, obviamente, é necessário um número maior de reais por hectare. No caso, entre 30% e 40% a mais por hectare. No entanto, como o crédito rural tem como fonte principal, basicamente, os recursos de depósito a vista, que caíram com o fim da CPMF, se tem o seguinte casamento: um aumento de demanda e uma redução da oferta de crédito rural. Isto não tem nada que ver com a crise internacional. É um dado interno. Ao qual se soma um outro dado interno que é a não finalização dos entendimentos com relação a dívidas anteriores. O que inibe produtores eficientes de terem acesso ao crédito. Estes dois fenômenos: dívida passada e redução da oferta de crédito, num cenário de aumento de demanda por crédito, são problemas que não têm nada que ver com a crise internacional. A crise afetou o crédito rural em duas outras áreas. Uma é que as tradings que financiavam, fundamentalmente, soja, principalmente na fronteira do Centro-Oeste, tiraram o apoio de boa parte dessa oferta de crédito porque suas matrizes não obtiveram crédito nos países de origem. Então, houve uma redução de oferta de crédito por parte das tradings e isso significava para a soja cerca de 30% de financiamento. Portanto, houve uma forte redução da oferta de crédito para a soja.

E por último, também em conseqüência da crise, nós temos uma retração da oferta de Adiantamento sobre Contrato de Câmbio (ACC) para exportação de produtos acabados ou industrializados, que está representando um represamento no pagamento dos fornecedores. Isso está acontecendo hoje, vigorosamente, na área de cana-de-açúcar, que há dois anos era o melhor setor da agricultura e hoje é o pior que tem. Os produtores de cana não estão recebendo pela produção que estão entregando em boa parte do País. E essa situação já ameaça outras áreas como os frigoríficos, que já têm muitos quebrando, como na área de suco de laranja e a indústria de alimentos em geral, que depende de ACC para exportar. Então, o resumo total é que temos uma safra muito mais cara com menos crédito.

Terceiro problema. Este determinado pela crise. Na pior das hipóteses, os fundamentos para que os preços agrícolas continuem com valores acima das médias históricas podem desaparecer. Os fundamentos que existem hoje são o seguinte: os países emergentes têm tido aumento de população maior que os países desenvolvidos e aumento da renda per capita maior do que nos países desenvolvidos. É por essa razão que os mercados emergentes estão crescendo mais como compradores do que os mercados dos países desenvolvidos. Os dados são impressionantes. Nos últimos sete anos, nosso aumento de exportações agrícolas para os países desenvolvidos foi da ordem de 11% ao ano. Mas para os países emergentes foi de 21% ao ano, quase o dobro. Então, é lá que está o grande mercado. China, Índia, países asiáticos, América Latina etc. Porém, imaginemos o pior cenário. Que a crise econômica americana se aprofunde. Se transforme numa recessão real, que afete o setor industrial desses países emergentes, que são exportadores para os americanos e europeus. Se isso acontecer, então a renda desses países emergentes cairá e a demanda também cairá. Nesse cenário, os preços fatalmente cairão. E aí nós teríamos o pior de todos os cenários. Uma safra cara com pouco crédito, uma produtividade baixa e um preço baixo na época da colheita. Seria um desastre sem precedentes.

 

SI – E se esta previsão se concretizar, em quanto tempo o senhor acredita que isso deva acontecer?

Rodrigeus – Eu quero reiterar insistentemente: eu não acho provável que aconteça. Mas se a crise se estender, depende, pode ser daqui para o final do ano… Eu acho que daqui a três ou quatro meses nós teremos tudo isto muito claro. Que é exatamente o lapso de tempo para colher as safras que estão sendo plantadas agora. Vamos imaginar esse pior cenário. Vamos trabalhar com esse pior cenário. Esse pior cenário teria conseqüências dramáticas para o País. Por quê? Porque teríamos uma safra um pouco menor no ano que vem e uma profunda descapitalização, endividamento e inadimplência dos produtores rurais. Nesse pior descasamento da cadeia. O que isso representaria? Isso representaria um plantio muito menor em 2009. Portanto, uma colheita muito menor em 2010. Essa pequena colheita em 2010, que não seria o caso somente no Brasil, pegaria todo o Hemisfério Sul, a Argentina, a Austrália, todo mundo. Enfim. Todos estariam neste mesmo procedimento, que levaria a uma menor oferta global de alimentos e também em termos internos. E, portanto, a uma inflação. E pior do que isso, uma retração das exportações brasileiras do agronegócio. É de conhecimento de todo mundo que o agronegócio tem sido a alavanca do saldo comercial brasileiro. Então, poderíamos ter um déficit comercial que iria, naturalmente, queimar reservas. Um desastre dessa natureza para a agricultura brasileira em 2009 representaria um desastre violento para o Brasil em 2010.    

Muito bem. Como é que nós podemos transformar esse baita problema numa oportunidade para o Brasil?

Da seguinte forma: usando um instrumento que já existe. Nós não vamos inventar a roda, nem criar nenhuma novidade. Vamos apenas reimplementar a PGPM, que nada mais é do que a política de garantia de preços mínimos. Ou seja, uma lei que existe desde os anos 1970. E que tem uma conceituação clara que é a seguinte: o governo define os preços mínimos dos produtos agrícolas, esses preços mínimos de acordo com a lei têm que cobrir todos os custos de produção e dar uma pequena remuneração ao produtor. Definidos esses preços mínimos, imediatamente, os produtores teriam clareza do que iriam receber no limite lá na frente. Por quê? De acordo com a lei, na hipótese de os preços do mercado ficarem abaixo dos preços mínimos, o governo intervém. Ou comprando um pouco da produção – o que sinaliza para o mercado que o governo não vai deixar o agricultor quebrar e isso já leva os preços para cima. Mas não basta o governo refazer os preços mínimos. Isso ele faz em dois dias, já que a Conab tem as matrizes de cálculo para isso e é só colocar na equação as variáveis com todos os custos de produção. O fundamental é que o governo, estabelecidos os preços mínimos, imediatamente coloque no orçamento da União para 2009 recursos para que a política seja implementada. Senão não adianta nada. Se o Ministério da Agricultura não tiver orçamento para executar a PGPM, então não adianta nada implementar os preços mínimos.

 

SI – Isso não seria considerado uma interferência do governo no mercado? Países importadores não poderiam ver isso como protecionismo?

Rodrigues – Isto não é subsídio. Isto é uma forma de regulação de mercado. O governo não vai interferir no mercado de maneira a comprar a safra de milho ou a safa de soja. Ele vai dar um sinal para o mercado de que vai balizar os resultados dos preços. Apenas estaríamos fazendo algo similar ao que os países desenvolvidos já fazem e daríamos uma condição excepcional para o País dar uma virada em 2010.

 

SI – Na questão de carnes, que há sempre uma perspectiva de aumento de consumo. Em não se configurando esse cenário tão pessimista, as perspectivas de aumento de consumo de carnes irão se manter?

Rodrigues – Sim. Algumas cadeias, por exemplo, a cadeia da carne, a cadeia do açúcar, do álcool, têm um horizonte permanente de crescimento. Poucos países têm a condições que temos para atender essa demanda. Mas estas cadeias independem de preço mínimo. Elas dependem de ACC. Então, o preço mínimo é muito importante para culturas anuais, culturas de verão. Mas para culturas de exportação – laranja, açúcar, carne, café torrado e moído – dependem do ACC. O governo já está sinalizando que vai entregar dinheiro para isso. Isso é absolutamente essencial. Não podemos esperar fevereiro, março ou abril de 2009, porque a comercialização já está acontecendo. Nós exportamos hoje para mais de 140 países, me refiro ao mercado de carnes em geral, e vamos aumentar muito essa posição, mas vamos precisar de apoio do governo. E isso não pode ser considerado intervenção. É crédito para comercialização, que é um instrumento que funciona em qualquer lugar do mundo.

 

SI – O setor exportador, quando o dólar começou a cair, achou que a cotação da moeda americana deveria subir para mais de R$ 2,00. Claro que era um outro cenário no momento, mas, hoje, o dólar já está acima dos R$ 2,00. O senhor acredita que este patamar ajuda os exportadores?

Rodrigues – Claro que sim. Mesmo na hipótese de os preços caírem em dólar lá fora neste cenário mais negativo. Mas se o dólar se mantiver acima de R$ 2,00, este valor seria uma compensação em reais e acabaríamos, de uma certa forma, contrabalanceados, evitando ou minimizando a perda de renda.

Mas há economistas falando em dólar a R$ 1,80 já no final deste ano. Eu quero ficar sempre com os pés no chão com o pior das hipóteses. Cai o preço, cai o dólar. O ideal é você ir para uma guerra preparado com raio laser e o seu adversário com um canivete. Temos que estar prevenidos para o pior.

 

SI – Que patamar de conversão de dólar o senhor acredita ser o ideal?

Rodrigues – Isso tem uma ligação muito estreita com os preços dos produtos em dólar. Você falou muito bem: “ah, com o dólar valendo menos de R$ 2,00 seria um desastre”. E seria. Por que não foi? Porque os preços subiram em dólar espetacularmente. Ou porque houve descasamento entre oferta e demanda, ou porque houve especulação, ou porque houve uma intervenção em parte do mercado de combustível líquido americano por causa do milho utilizado, ou porque os custos de produção subiram e tiveram reflexo nos produtos finais. Não importa. O fato é que os preços subiram. Então, embora ele tenha perdido em dólar os preços subiram. Então, qual é cotação ideal para o dólar? O dólar ideal é a R$ 2,50, R$ 2,60. Para mim, o dólar ideal é a R$ 3,00, R$ 3,50. Mas é lógico que temos que ter o bom senso de avaliar qual é a relação entre o preço em dólar e a relação cambial. No entanto, o dólar a R$ 1,50 paga a soja. Agora, se a soja ficar a US$ 6,00 o bushel e o dólar a menos de R$ 2,50 você toma prejuízo.

 

SI – O senhor vem do cooperativismo e as cooperativas estão com uma série de reivindicações ao governo federal diante da crise. Se nada for feito, pode ocorrer uma retração do papel das cooperativas, no qual elas se expandiram exportando e agora podendo voltar a um papel mais interno? E, outra coisa, as cooperativas podem quebrar?

Rodrigues – Bom, levando em consideração o pior cenário, que eu não acho provável, mas pode acontecer, o que vai haver é uma inadimplência dos produtores e, inclusive, quanto às suas cooperativas. Até porque o agronegócio brasileiro hoje é uma atividade que depende de exportação. Não somos mais um país agrícola, cujo mercado interno seja a grande sustentação. Salvo no caso do álcool e de produtos como arroz, feijão e palma. Então, é preciso que haja essa visão estratégica em relação às cooperativas. Até porque elas têm um papel adicional a jogar, como já estão jogando, com muita competência, mais precisam desse tipo de apoio para continuar jogando e melhorando sua produção, que é no âmbito da agregação de valor. Não podemos ficar a vida inteira querendo ser exportadores de matéria-prima.

Agora, não é uma coisa trivial falar “vamos agregar valor e vamos exportar”. O Brasil tem hoje 1/3 do mercado mundial de café verde. Mas menos de 2% do mercado mundial de café torrado e moído. Enquanto Alemanha e Itália têm mais de 50% desse mercado sem ter um pé de café plantado. Eles compram café verde daqui, da África e do Vietnã, fazem um blend, torram ou moem e exportam como se fosse um produto alemão ou italiano. Por que não fazemos isso aqui? Porque se não tiver um acordo com as redes de distribuição lá, o café chega ao porto e morre no porto. Nunca mais sai de lá. Tem que haver uma grande negociação, que passa pela promoção comercial, por apoio às exportações, adidos agrícolas em algumas embaixadas e, sobretudo, um esforço de marketing por parte do setor privado bastante vigoroso. Não é uma coisa singela. Mas as cooperativas têm condições de fazer isso por quê? Porque no mundo inteiro existem redes de cooperativas de consumo gigantescas.

 

sI – Mas elas manteriam esse papel de exportadoras? O senhor não acredita numa retração desse papel?

Rodrigues Na hipótese de perderem o apoio sim. Porque todo esse esforço de crescimento que elas estão fazendo pode morrer na praia. Mas eu acredito que o conjunto de reivindicações que a Organização da Cooperativas Brasileiras (OCB) está preparando é muito bem visto. É visto com bons olhos pelo governo até pela temática de agregação de valor. O grande problema do Brasil na área agrícola é a inexistência de uma estratégia consertada dentro do governo em relação ao agronegócio. Ou, seja, falta articulação e interação para a cadeia produtiva. Eu vivi no Ministério da Agricultura uma das piores crises dos últimos 40 anos. Os preços despencaram, os custos subiram, a dívida rural se ampliou, as safras enfrentaram secas brutais, deixamos de produzir quase 30 milhões de toneladas no Brasil em dois anos por causa de secas. Depois vieram a aftosa e a gripe aviária lá fora. Nessas situações, vem todo mundo falar com o ministro da Agricultura. A crise tem que ser resolvida pelo ministro da Agricultura.

E o orçamento de cada Ministério para qualquer atividade é definido pelo Ministério do Planejamento. A liberação dos recursos, inclusive a definição de preços mínimos, do volume de comercialização, é definido pelo Ministério da Fazenda. A taxa de juros e questões ligadas à taxa de câmbio é definida pelo Banco Central. Quem resolve o negócio de estrada de ferro, rodovia, ponte, porto é o Ministério dos Transportes. Quem resolve as regras de comércio é o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Mas quem faz os acordos internacionais é o Itamaraty. Quem decide os assuntos referentes à energia, e portanto, dos biocombustíveis é o Ministério de Minas e Energia. Quem apita em questões de ciência e tecnologia é o Ministério de Ciência e Tecnologia, com o CNPQ, com seus fundos de investimentos etc. Quem resolve os problemas de floresta plantada, que é agricultura, é o Ministério do Meio Ambiente. Quem discute invasão de terra é o Ministério do Desenvolvimento Agrário. E ainda tem Incra, Funai, Ibama, ANA [Agência Nacional de Águas], Petrobrás, ANP, interferindo em todos os processos ligados ao agronegócio. E com gente boa em todos os lugares. Gente boa, mas que não conversa entre si. Então não há estratégia. Então o que adianta levar o problema para o Ministério da Agricultura se o transporte não está resolvido no Ministério dos Transportes, se o crédito não veio do Ministério da Fazenda. É fundamental que haja uma visão integrada dentro do governo em relação à agricultura. Que é o que os países desenvolvidos têm. O que falta no Brasil é essa visão sistêmica, inclusive para a sociedade brasileira. E isso em grande parte se deve à desorganização do próprio setor rural. Porque não temos uma organização que nos represente de uma maneira absoluta. E é difícil, porque o Brasil é um país enorme. As diferenças climáticas, fundiárias, tecnológicas, étnicas e, portanto culturais, são monumentais. Não é possível comparar um agricultor da Serra Gaúcha com um agricultor do Nordeste ou do Centro-Oeste. São muito diferentes. São culturas diferentes, características diferentes que exigem uma política consertada muito ampla. E nós não temos essa representação articulada.

 

SI – Com relação à inflação, há bem pouco tempo os alimentos foram apontados como os responsáveis pela inflação. O senhor acredita que existe realmente a possibilidade de a inflação voltar neste momento? E como combatê-la?

Rodrigues – Eu acho pouco provável. Mas o risco existe. Se os países desenvolvidos reduzirem sua produção de alimentos por causa da queda de preços e a América Latina reduzir a oferta, isto criará, em 2009, uma insustentabilidade no processo. Com isso, seguramente, o ano de 2010 será um ano de inflação. Por isso é que eu disse anteriormente, que o Brasil, usando adequados instrumentos, terá uma condição extraordinária de combater a inflação, aumentar as exportações e ocupar mercado. Mas existe o risco.

 

SI – O atual preço do petróleo vai ter impacto na produção de etanol dos Estados Unidos que é feito a partir do milho?

Rodrigues – Certamente que sim. Não só no etanol a partir de milho nos Estados Unidos como no etanol de trigo e de beterraba feito na Europa. Acredito que, no curto prazo, só o etanol de cana-de-açúcar será competitivo. E, no médio prazo, o etanol de celulose.

 

SI – Especificamente para a avicultura e a suinocultura brasileiras, na sua opinião, o que é que falta, hoje, para estes setores? Linhas de crédito para os produtores, garantia de abastecimento de milho, preços, incentivos às exportações dessas carnes?

Rodrigues – Um estudo de previsão do Ministério da Agricultura olha para estes setores pelos próximos 10 anos e projeta um crescimento de quase 90% na produção de carne suína e entre 35% e 40% na produção de carne de frango para exportação, fora o crescimento do mercado interno. Acredito ser bastante plausível essa projeção. Mas o que falta para esses setores?

Em primeiro lugar, uma melhor articulação entre o público e o privado na questão da defesa sanitária. Esse é um problema central e que tem a ver com regionalização, tem a ver com barreiras sanitárias corajosas interestaduais e internacionais. E essa articulação na área de defesa sanitária é algo bastante difícil. Se fosse fácil já tinha sido feita. No tempo em que fui ministro da Agricultura montei com o setor de avicultura uma grande negociação para a implementação de um programa de regionalização sanitária, que acabou convergindo de maneira positiva, mas ainda de maneira insuficiente. Então, a defesa sanitária é um tema crucial para ambos os setores.

Uma outra coisa: o que é um frango? O frango é a soma do ovo com o milho. Se não tenho o ovo, não tenho o frango. E se não tenho milho também não tenho frango. Não adianta ter ovo sem milho e vice-versa. O frango é a síntese de cadeia produtiva. E é necessário uma maior integração entre as cadeias do milho e da avicultura e suinocultura. Quando fui ministro, montei as Câmaras Setoriais para integrar os agentes da cadeia produtiva, justamente com esse objetivo. Quando assumi em 2003 não havia milho. O milho que tinha preços de R$ 27,00 a saca. Então montei uma operação de guerra para fazer uma safrinha. Mas eu chamei a turma da agricultura e falei: “Gente, façam acordo com o setor privado”. Eu não me lembro dos dados agora, mas digamos que o preço mínimo fosse R$ 12,00. Chama o setor privado e fala: “Vamos fazer um acordo a R$ 15,00”. Garante o preço e o cara tem abastecimento. Acho que isso é uma coisa que os dois setores não têm sabido fazer. Nem a indústria de suínos e frangos e nem a agricultura de grãos. Mas a negociação entre os elos da cadeia produtiva podia ser uma grande negociação com estabilização da renda.

Terceiro, uma política comercial articulada que os setores já estão fazendo bem. Acredito que esteja mudando muito. Começou com a carne bovina com a Abiec, mas, hoje, vejo a Abipecs e a Abef trabalhando com muita competência nessa área e indo para o mercado de forma agressiva. Para vender mesmo. O Brasil era muito mais um país em que as pessoas vinham comprar do que ele ia vender. Em resumo é isso. Defesa sanitária, integração da cadeia produtiva, promoção comercial e ação de governo nas negociações para abertura de mercado e de acordos sanitários. Lógico que poderíamos falar de diversas outras coisas. Crédito para exportação, estímulos para montagem de indústrias, e aqui as cooperativas poderiam ter um papel relevante, agregando valor também. Eu sempre acho que o Mercosul é um sonho inteiramente acadêmico. Porque nós temos, de longe, a melhor avicultura e suinocultura da América do Sul, mas nem sempre temos o milho garantido. E a Argentina tem uma produção espetacular de milho. Então, por que não pegamos o milho argentino e misturamos com o milho brasileiro e botamos num porco brasileiro e exportamos para o Japão um porco Mercosul? Quer dizer, a integração comercial verdadeira na América do Sul seria uma coisa interessante. Uma vez fui à Argentina, eu era presidente da Associação Brasileira de Agribusiness (Abag), num evento de sojicultores argentinos, e falei: “Para o que vocês torcem?” E eles responderam: “Para dar ferrugem asiática na soja brasileira”. E nós, do Brasil, torcemos para não chover na Argentina. Essa é a verdade. Não há integração nenhuma. Nós estamos é concorrendo, estamos é competindo. Não existe a menor integração no Mercosul. De que adianta discutir o Mercosul se existem políticas cambiais diferentes, tributária diferente, de crédito diferentes, fiscal diferente, etc. Lógico que não vai haver integração. Quando podíamos ser um grande país, inclusive trazendo a arbitragem de preços para a BM&F e não jogando toda a arbitragem para Chicago ou Europa.

 

SI – Quais seriam os desafios para avicultura e para a suinocultura brasileiras em 2009?

Rodrigues – Tecnologia é um desafio. A questão tecnológica é uma questão que não se pode jamais descuidar. Tecnologia é processo evolutivo. Se você para de investir em tecnologia, seu concorrente ganha de você. Portanto, investir em tecnologia é um tema fundamental. Temas como rastreabilidade, certificação de produtos, com selos de qualidade e identificação de origem. Esses são temas fundamentais. Aliás, já estão acontecendo. Não há como fugir deles. Toda a questão ligada à sustentabilidade, que é obviamente ligada à tecnologia. Portanto, tratamento de dejetos, utilização de insumos para cada produto, a questão da defesa social e ambiental, redução na emissão de CO2, que interage com comércio são todos fenômenos, são desafios, presentes e cuja importância vai aumentar. Isso não é modismo. São ferramentas que vieram para ficar. São “n” desafios presentes a cada momento neste processo dinâmico que é o de crescimento competitivo.

 

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