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Agricultura brasileira precisa aproveitar o mercado asiático – por Marcos Fava Neves

Estudar os números do consumo de alimentos na Ásia trás animação um grande produtor e exportador de alimentos. Porém, o tradicional foco na China negligencia outros importantes mercados consumidores.

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Estudar os números do consumo de alimentos na Ásia trás animação um grande produtor e exportador de alimentos. Porém, o tradicional foco na China negligencia outros importantes mercados consumidores. Estimativas mostram que o mercado indiano de alimentos saltará de US$ 155 bilhões em 2010 para US$ 260 bilhões em 2015. No mesmo período analisado, o mercado tailandês crescerá 50%, o do Vietnam 65% e o da Indonésia saltara de US$ 65 bilhões para US$ 100 bilhões, fora os países árabes e a África. 

A produção de alimentos tende a crescer nos países asiáticos, mas apenas até o momento onde sua capacidade de recursos produtivos aguentar. E em muitos destes países, esta se encontra no limite ou próximo deste. Portanto, existe oportunidade.

Os impactos da atual crise mundial tendem a ser menos sentidos nos emergentes e no mercado de alimentos, pois em comparação o turismo, habitação, automóveis, eletrônicos e supérfluos, os alimentos são os últimos a serem cortados em época de orçamento restrito.

As multinacionais anunciam grandes investimentos, desde expansão da capacidade produtiva, adaptação e lançamento de produtos e estruturação de canais de distribuição e vendas em emergentes. Empresas brasileiras poderiam aproveitar mais o real valorizado (mesmo com a recente desvalorização) e adquirir ativos fabris nestes países, visando fincar bandeira e fazer terminação de produtos, acessando marcas e canais de distribuição, e com este acesso, alavancar as exportações de produtos do Brasil. 

Da mesma forma, ocorre maciço investimento asiático em países com potencial de produção, onde estes já detém 80 milhões de hectares produtivos, além de fábricas e outros.

Deve-se discutir se o Brasil está preparado para, não somente receber, mas sair na frente de países concorrentes atraindo investimentos de empresas asiáticas. Entre muitos outros entraves, dois pontos chamam a atenção. O primeiro é o fato do Brasil estar virado (Oceano Atlântico) para o lado contrário do mercado mais importante, o asiático. Ligações rodoviárias e ferroviárias com portos do Pacífico são muito mais prioritárias e com capacidades geradoras de renda futura do que o investimento no trem bala ligando São Paulo ao Rio de Janeiro. 

E para deixar os investimentos acontecerem, o segundo ponto é o parecer da Advocacia Geral da União dado em 2010, que lamentavelmente jogou insegurança jurídica nos investimentos internacionais, e acabou advogando contra a União (sociedade). Restringiu os investimentos diretos, os arrendamentos, num valor que a Confederação Nacional da Agricultura estima em R$ 60 bilhões. Imagine o leitor da Folha, quanto que R$ 60 bilhões em investimentos gerariam de empregos, impostos, exportações e renda para ser distribuída. Imagine ainda que estes investimentos acontecerão em outros países, que passarão a ser fortes concorrentes nossos. 

Em tempos de Rock in Rio, que este parecer possa ser revisto e proposta uma regulação moderna e atrativa para receber os investimentos com os braços abertos do Cristo Redentor, e que do rock “que país é este?” possa-se mudar para o samba “deixa acontecer… (investimentos)… naturalmente”.

*Artigo originalmente publicado no jornal Folha de São Paulo em 01 de outubro de 2011

Marcos Fava Neves é Professor Titular de Planejamento na FEA/USP em Ribeirão Preto e Coordenador Científico do Markestrat.

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