As advertências do Fundo Monetário Internacional sobre o Brasil merecem ser levadas a sério, mas uma análise detalhada dos números apresentados pela instituição sugere que o país não está no primeiro batalhão do risco global. O “Relatório de Estabilidade Financeira Global” do Fundo traz algumas surpresas – a vulnerabilidade das empresas brasileiras é relativamente semelhante à do país. Ambas merecem ser relativizadas.
Grau de vulnerabilidade do Brasil é bastante relativo
As advertências do Fundo Monetário Internacional sobre o Brasil merecem ser levadas a sério, mas uma análise detalhada dos números apresentados pela instituição sugere que o país não está no primeiro batalhão do risco global. O “Relatório de Estabilidade Financeira Global” do Fundo traz algumas surpresas – a vulnerabilidade das empresas brasileiras é relativamente semelhante à do país. Ambas merecem ser relativizadas.
Para o FMI, a ameaça aos emergentes provém de novas reversões nos fluxos de capital. Em 2013, o estoque de investimentos externos nos mercados de renda fixa emergentes subiu a US$ 1,5 trilhão, US$ 480 bilhões acima da tendência observada antes da crise, entre 2002 e 2007. Esse capital à procura de rendimentos maiores reduziu prêmios de risco e custos de financiamento das empresas. “A alta das emissões de dívida corporativa foi particularmente impressionante”, aponta o relatório.
Quase um ano depois de maio de 2013, quando Ben Bernanke, então presidente do Federal Reserve americano, indicou que a era de abundante liquidez poderia começar a terminar, o Brasil não se revelou tão frágil quanto temiam os investidores durante as turbulências. De maio até março (21) deste ano, quando o relatório do FMI foi concluído, o real foi a sétima moeda que mais se desvalorizou, com pouco mais de 10% – e agora inverteu a trajetória. Turquia, Ucrânia, Indonésia, Rússia e África do Sul apanharam mais, fora a Argentina. As ações brasileiras só perderam menos que as turcas e húngaras. Mas ao longo do período, os tombos da bolsas tailandesa, indonésia e russa chegaram a ultrapassá-las.
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No custo de prevenção do calote (Credit Default Swaps), o Brasil não está entre os cinco mais frágeis. Para todo o período, o custo indica que o risco de calote é maior na Argentina, Ucrânia, Turquia, Rússia, Índia e Tailândia. De janeiro a 21 de março deste ano, o CDS do Brasil caiu. Onde o Brasil se destaca negativamente é nos juros da dívida em moeda local, que subiram quase 400 pontos base, um salto só ultrapassado pela Turquia. Há efeitos externos em ação, mas a investida do Banco Central para conter a inflação teve mais peso nisso do que as incertezas sobre a conduta futura do Fed.
O relatório mostra que o Brasil tem alta dívida bruta, de 66% do PIB, só inferior aos 67% da Índia e 104% de Cingapura. A dívida líquida (34%), porém, é menor que a do México e África do Sul, por exemplo. A esse retrato estático, o FMI justapôs outro, dinâmico, sobre a evolução de indicadores da crise de 2008 até agora. Entre doze emergentes, a dívida do governo brasileiro, que evoluiu 2,9 pontos percentuais do PIB, só aumentou mais que a da Índia, Indonésia e Turquia, e muito menos que as da Africa do Sul, Malásia, China, Polônia e Cingapura. O relevante crescimento do crédito às famílias, 8,2 pontos do PIB, empalidece diante dos 24,1 da Tailândia, 20,1 da Malásia e 13,6 da China. Na expansão do crédito em geral, o Brasil fica atrás só da Turquia e da China.
Se não há ameaça real de solvência do Brasil no médio prazo, ela existe para as empresas? Segundo o FMI, há boa dose de riscos. O Fundo suspeita que o encarecimento geral do crédito e o aumento do endividamento geral, apesar de as empresas terem aproveitado as baixas taxas de juros, serão um fardo duro de carregar quando os juros subirem nos EUA ou se houver, em consequência, um encurtamento drástico do crédito externo.
O FMI apurou resultados de 15 mil grandes e pequenas empresas emergentes – 704 do Brasil, com receitas de US$ 1,7 trilhão. No atacado, o país não está bem. Um choque que levasse à redução de 25% dos lucros e aumento de 25% dos juros do crédito colocaria em risco quase metade da dívida corporativa total no Brasil, enquanto que a proporção de empresas vulneráveis a esa situação ultrapassaria um pouco 50% do total de empresas.
Esses dois resultados não contam toda a história. Primeiro, dos 16 países emergentes, a dívida corporativa externa brasileira é uma das menores. A carga de juros médios anuais dos últimos 5 anos (até 2012) foi a segunda menor da amostra. O FMI testou uma desvalorização de 30% no câmbio e viu que seu impacto máximo, sobre empresas que não têm hedge, é o de reduzir lucros em 10% – um dos menores e melhores resultados entre os emergentes.
Há graves ameaças no cenário externo e preocupantes desequilíbrios no front doméstico, ingredientes de um ambiente tenso e volátil. Mas para o país entrar em uma crise para valer falta muito.





















