A recente queda nos preços dos dois principais grãos plantados no Brasil, a restrição de crédito pelas tradings e mesmo a dificuldade maior de se obter financiamento em bancos em tempos de aperto global terão efeito na produção.
Brasil pode reduzir área de milho; soja cresce menos
Redação (06/10/2008)- No momento em que produtores começam o plantio no Brasil em 2008/09, em meio à turbulência financeira, analistas revisam para baixo as projeções para a área plantada, indicando que safra de soja crescerá menos do que o previsto e que a produção de milho poderá ter queda, após um recorde em 2007/08.
A recente queda nos preços dos dois principais grãos plantados no Brasil, a restrição de crédito pelas tradings e mesmo a dificuldade maior de se obter financiamento em bancos em tempos de aperto global terão efeito na produção.
Segundo os consultores, a área de soja só não cairá porque a semeadura em Mato Grosso, o maior produtor nacional, deve ocorrer nas fertilizadas terras antes dedicadas ao algodão, o que permite economia nas despesas. Já o milho terá redução de plantio, especialmente no Sul, com agricultores plantando mais a oleaginosa, que garante atualmente uma rentabilidade maior.
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"Justamente na hora do plantio nos principais players da América do Sul vem esse choque. Isso acendeu um farol amarelo para intenção de aumento de área", disse o analista da AgraFNP Pedro Collussi, integrante do grupo global Agra Informa.
Segundo ele, 2008/09 tinha "tudo para ser um grande ano", a área de soja poderia aumentar "muito mais" e agora a AgraFNP, que está alterando suas estimativas, já vê queda no milho.
Outro analista, Fernando Muraro, da Agência Rural, é mais enfático na avaliação das safras. "A área de soja deve ter crescimento entre 3% a 5%, mas definitivamente cai o investimento em fertilizante, vai ser uma safra mais na manha", disse ele, observando que, apesar da rentabilidade menor da oleaginosa em relação a 07/08, os ganhos ainda são razoáveis, mesmo ante custos recordes de US$ 800 a US$ 900 por hectare nas áreas de soja do Centro-Oeste.
Para o milho a situação é pior. Segundo Muraro, no Sul do País, onde se situa o maior produtor do Brasil (o Paraná), o custo de produção do cereal ficou acima do da soja. "Então plantar milho no Sul é inviável… No Brasil, a área de milho deverá ter queda de 5% a 8%, puxada pela redução no Sul", destacou.
O País colheu uma safra recorde de milho de 58,5 milhões de toneladas em 07/08, pouco abaixo da produção de soja (60 milhões), cultura na qual ocupa o posto de segundo produtor mundial.
A situação do milho é mais grave que a da soja no Brasil, entre outras coisas, pelos grandes estoques de passagem em 07/08, estimados pela AgraFNP em 16 milhões de toneladas. As reservas cresceram porque o país esperava exportar mais de 10 milhões de toneladas este ano, e na melhor das hipóteses as vendas atingiriam 6 milhões de toneladas, com a redução da demanda européia e iraniana nesta temporada.
Fundamentos
"É uma safra de muita tensão, a safra começa ser plantada com muita pulga atrás da orelha… A minha recomendação é a seguinte: vamos apagar a televisão, os jornais, e voltamos daqui a 30 dias", comentou Muraro, indicando que a situação eventualmente pode melhorar após a turbulência.
Já o analista André Debastiani, da Agroconsult, avalia que apesar das dificuldades financeiras os fundamentos para o mercado de soja continuam sólidos.
"Os patamares de preços estão sendo rompidos (para baixo) dia após dias… mas os fundamentos continuam positivos, o mundo vai continuar comendo, tem estoques bastante baixos… Essa crise vai afetar alimentos, mas vai ser muito menos que qualquer outro setor", destacou Debastiani.
Se a situação de mercado é complicada, pelo menos as condições meteorológicas devem favorecer a semeadura no Centro-Oeste, segundo avaliação do Ministério da Agricultura, que prevê chuvas "entre normal e pouco acima da média histórica", segundo estudo divulgado nesta sexta-feira.
Em Mato Grosso, onde o plantio começa antes das demais regiões produtoras, choveu nos últimos dias, o que permitirá uma maior evolução da semeadura, segundo a Agência Rural.
No Paraná, embora ainda pouquíssimos campos de soja tenham sido semeados, o plantio de milho já começou, atingindo mais de um terço da área estimada de 1,3 milhão de hectares, queda de 6,2% ante 07/08, de acordo com o governo do Estado.





















