Prêmios pagos pela soja no porto de Paranaguá desafiam a sazonalidade e seguem firmes.
Prêmios pela soja ‘desafiam’ sazonalidade em Paranaguá

A estiagem que prejudica lavouras de grãos na região Nordeste do país e o excesso de chuvas no Norte já fizeram a Defesa Civil declarar 837 municípios em situação de emergência e disparar pedidos de ajuda ao Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro).
Nesta safra 2011/12, iniciada em julho passado, o total de pedidos de ressarcimento passou de 45 mil até o início deste mês e deve atingir o dobro da safra passada, quando foram registrados 25.106 sinistros. De julho a dezembro da safra atual, os pedidos já haviam superado todo o ciclo 2010/11, atingindo 25.192 comunicações de perda, com forte aumento devido aos problemas nas plantações de grãos, como de milho, feijão e soja na região Sul.
O volume de indenizações do Proagro deverá bater recorde na safra 2011/12. O gerente-executivo de Regulação, Fiscalização, e Controle das Operações do Crédito Rural e do Proagro, Deoclécio Pereira Souza, disse que a crise deste ano vai ser pior que a da safra de 2004/05, até hoje a mais grave. Naquele ano, mais de R$ 800 milhões foram pagos em indenizações. “De todos os pedidos já feitos nesta safra, 97% são decorrentes da secas registradas no Sul e no Nordeste”, informa.
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O Proagro é a principal ferramenta de seguro para o produtor rural. Ela exime o dono da terra de cumprir algumas obrigações financeiras em caso de perda de receita por eventos climáticos adversos. Para aderir ao programa, o produtor deve pagar o adicional (taxa de prêmio) e seguir os indicativos do zoneamento agrícola divulgados pelo Ministério da Agricultura. Os recursos vêm do orçamento da União.
As chuvas na região Norte do país deixaram, até o momento, 68 municípios em situação de emergência. O Estado mais atingido é o Amazonas em que 43 municípios tiveram esta situação decretada. Outros tantos estão sendo avaliados pela Secretaria Nacional de Defesa Civil. O Acre tem 11 municípios em situação de emergência, o Pará, 12, e Rondônia, dois deles.
No Nordeste, o problema é com a seca. A falta de chuvas na região deixou 769 municípios em situação de emergência e afeta mais de 4,5 milhões de pessoas. O Estado que mais sofre com a estiagem é a Bahia, com 214 municípios gravemente afetados. No Rio Grande do Norte, são 140, na Paraíba, 172, e no Piauí, outros 112. Em algumas partes da região não chove há pelo menos três meses. O governo já considera a estiagem a pior das últimas três décadas.
O governo deverá investir no Nordeste R$ 2,7 bilhões em ações para aumentar o fornecimento de água e o apoio ao agricultor. Dentre as ações previstas está a ampliação do programa Água para Todos, que contará com recursos de R$ 799 milhões. Outros R$ 164 milhões serão aplicados na Operação Carro Pipa para atender a região.
O Seguro da Agricultura Familiar (Seaf), conhecido como “Proagro Mais” e gerido pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), já recebeu mais de 90 mil comunicados de ocorrência de perdas de julho de 2011 até o dia 8 de maio deste ano. Até agora já foram pagos 28.347 pedidos, a um valor de R$ 192 milhões. O MDA estima que 100 mil solicitações de perdas sejam registradas em 2012. Os gastos com pagamento do seguro podem chegar a R$ 650 milhões na safra 2011/12.
Até o momento, há mais de 90 mil comunicados de perda. “Nossa previsão é atingir os 100 mil em 2012, o que representa mais de R$ 650 milhões em cobertura”, afirmou o diretor do Departamento de Financiamento e Proteção da Produção da Secretaria da Agricultura Familiar, João Luiz Guadagnin.
O Seaf foi criado para amortizar parte das operações de custeio agrícola e indenizar a parcela de renda que seria gerada antes das perdas. Seu foco são os agricultores familiares. O seguro garante o pagamento de até 100% do valor das operações de custeio e de até 65% da Receita Líquida Esperada do Empreendimento (RLE), limitado a R$ 3,5 mil.
O prêmio pago pela soja no porto de Paranaguá, no Paraná, atingiu o maior patamar em pelo menos cinco anos para o período entre fevereiro e maio, meses de colheita do grão no país. No porto, referência para a formação dos preços do grão vendido ao exterior, o “bônus” médio pago sobre o preço da commodity na bolsa de Chicago foi de 72,79 centavos de dólar por bushel (medida equivalente a 27,2 quilos) nos últimos três meses e meio.
É um salto de quase 250% sobre a média apurada no mesmo intervalo de 2011 (20,81 cents). Em maio, o prêmio tem se sustentado em 71,91 cents, mais de dez vezes superior aos 6,84 cents de um ano atrás.
No Brasil, o valor da soja destinada ao exterior é definido com base na cotação do produto em Chicago, acrescido de um prêmio, espécie de estímulo à exportação. Em época de safra, com grande volume de escoamento, o normal é que os prêmios estejam em patamares baixos ou negativos, como no início de 2008 (ver gráfico). Contudo, a frustração diante da quebra da safra 2011/12 na América do Sul, castigada pela seca, e a entressafra no Hemisfério Norte, reduziram drasticamente a oferta global do produto.
Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq), os prêmios em Paranaguá estão acima de 70 centavos de dólar por bushel desde dezembro de 2011, quando previsões de La Niña na América do Sul começaram a influenciar as cotações em Chicago.
Segundo Steve Cachia, analista da Cerealpar, o prêmio ficou mais firme pelo medo dos compradores de não conseguirem originar soja no Brasil. “Diante de um cenário internacional de demanda forte, especialmente da China, havia o temor de que não houvesse soja para todos, o que fez os compradores se movimentarem para oferecer um prêmio melhor, para estimular as vendas”, explica.
O prêmio atual não é o maior da história: houve um pico em setembro de 2009, a 245,36 centavos de dólar por bushel, também em função do fenômeno La Niña, que prejudicou o sul da América do Sul – sobretudo a Argentina, que enfrentou a pior seca em 50 anos. A expectativa é que os valores pagos cresçam nos próximos meses, à medida que os estoques sejam consumidos.
Além de o prêmio estar firme em plena safra, a conjunção da alta do dólar com o elevado preço da oleaginosa em Chicago produziu outro efeito favorável ao produtor: o preço da saca em reais bateu recorde. “Houve uma coincidência rara entre a inesperada valorização da moeda americana, que já bate R$ 2, a soja a mais de US$ 14 por bushel e os prêmios firmes”, avalia Cachia.
Atualmente, o preço da saca de 60 quilos está em R$ 64 em Paranaguá, ante R$ 48 há um ano. “Nominalmente, é o maior valor da história e a primeira vez que a saca passa dos R$ 60 no porto”, afirma Flávio Turra, gerente técnico da Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar).
Para Vinícius Ito, analista da Jefferies Bache baseado em Nova York, há outra anomalia em curso. O preço da soja em Paranaguá está mais alto que no Golfo do México, ponto de partida para a exportação da soja dos Estados Unidos, o que é anormal para o período – ao contrário do Brasil, os EUA estão na entressafra. O motivo é justamente o prêmio – que hoje, no Golfo, está em 64 centavos de dólar.
A tonelada do grão no porto paranaense está a US$ 554,82, quase US$ 3 mais cara que os US$ 551,88 pagos no terminal americano.





















