Apesar de as cotações das aves também terem subido, o produto é sempre alternativa em momentos de forte valorização da carne bovina.
Alta do boi já inibe consumo, e frango ganha mais espaço
Redação (18/07/2008)- A forte alta da carne bovina por causa da escassez de boi gordo no mercado já encontrou uma barreira no bolso do consumidor, e os reflexos disso começam a aparecer nos preços do produto no atacado. Depois de atingir R$ 6,10 o quilo no dia 9 de junho passado, os cortes de traseiro registram queda e estavam ontem em R$ 5,70.
Outro efeito da alta da carne bovina é a já conhecida migração para a carne de frango, cujos preços também começam a recuar no atacado. Apesar de as cotações das aves também terem subido, o produto é sempre alternativa em momentos de forte valorização da carne bovina.
No atual cenário, essa tendência deve se intensificar, segundo analistas. De acordo com estimativas do Instituto FNP, o consumo de carne bovina deve cair a 28 quilos per capita este ano depois de já ter recuado para 31 quilos em 2007. Já o de carne de frango está estimado em 40 quilos, segundo a Associação Brasileira dos Produtores de Pintos de Corte (Apinco), acima dos 38,1 quilos do ano passado.
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José Vicente Ferraz, do Instituto FNP, pondera que as estimativas sobre consumo de carne bovina foram feitas no início do ano, portanto ainda não consideravam a queda das exportações do produto decorrente das restrições da União Européia e nem a depreciação tão forte do dólar em relação à moeda brasileira. Assim, avalia, o número pode ficar acima dos 28 quilos.
De qualquer forma, deve continuar em queda enquanto o consumo de frango sobe. "O crescimento do consumo de frango é [fenômeno] mundial", observa Ferraz. Uma das explicações para esse crescimento – além do preço mais baixo da ave – é o ciclo de produção curto do frango. Enquanto o ajuste oferta-demanda acontece em 30 meses no caso do boi, ocorre em 60 dias para o frango, afirma o analista.
José Carlos Godoy, secretário-executivo da Apinco, reitera que a menor oferta de carne bovina – que eleva os preços do produto no mercado – acelera a transferência para o frango.
E essa migração já pode ser percebida no varejo, de acordo com Fabiano Tito Rosa, da Scot Consultoria. É difícil mensurar, mas o próprio comportamento dos preços ao consumidor indica que isso ocorre. Márcio Nakane, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor da Fipe, observa que a carne bovina começou a subir antes do frango, o que levou ao fenômeno da substituição. "Parte do aumento do frango é resultado disso", diz.
Ele concorda que o movimento de alta dos preços está chegando próximo do limite. "O preço continua aumentando mas num ritmo menor", acrescenta.
Na primeira quadrissemana de julho, a carne bovina fechou com variação positiva de 8,9%; na quarta quadrissemana de junho, era de 9,8%. Nas aves, também há desaceleração – de 6,1% na quarta quadrissemana de junho para 4,2% na primeira deste mês. Nakane afirma que o processo de desaceleração deve continuar.
Tito Rosa diz que "a inflação começou a comer o poder de compra do consumidor". Assim, os frigoríficos de carne bovina não têm conseguido mais repassar os aumentos de preço para o atacado, que está saturado também por causa da queda das exportações do produto devido às limitações européias e ao dólar desvalorizado. O resultado é pressão sobre o boi gordo.
A situação é curiosa já que há escassez de matéria-prima no mercado devido ao ajuste da oferta de gado decorrente de abate de matrizes nos últimos anos. Além da pressão no atacado, o inverno também fez a oferta de gado crescer e já há animais de confinamento no mercado, acrescenta o analista. Ontem, a arroba do boi gordo era cotada a R$ 92 em São Paulo, segundo a Scot Consultora; havia alcançado R$ 95 em junho.
Para José Vicente Ferraz, houve um "pouco de exagero" na queda depois de os preços terem subido bastante. A partir de agora, diz, as cotações do boi gordo devem buscar um patamar de equilíbrio, "pouco acima dos R$ 90".























