Estudo da WOAH aponta perdas de mais de 20% na produção animal e risco crescente de doenças transfronteiriças e pandemias
Gastos globais com defesa somam US$ 2,9 trilhões enquanto relatório aponta subfinanciamento da saúde animal

O aumento dos gastos globais com defesa, que chegaram a US$ 2,9 trilhões, contrasta com a redução dos investimentos em saúde animal e acende um alerta para riscos sanitários e econômicos em escala mundial. A avaliação faz parte do relatório anual “Estado da Saúde Animal no Mundo”, divulgado nesta quarta-feira (13), em Paris, pela Organização Mundial de Saúde Animal (WOAH), durante sua 93ª Sessão Geral.
Segundo o documento, o mundo ainda falha em priorizar a saúde animal, mesmo diante de evidências de que o custo da prevenção é significativamente menor do que o impacto da inação. Atualmente, doenças animais são responsáveis por destruir mais de 20% da produção global a cada ano, com efeitos mais severos em países de baixa e média renda, onde a atividade é essencial para a subsistência, a segurança alimentar e a economia.
O cenário se agrava com a queda recente na ajuda internacional. Em 2025, o financiamento global para a saúde foi de cerca de US$ 39,1 bilhões, sendo menos de 2,5% destinado à saúde animal. Ao mesmo tempo, sistemas com poucos recursos enfrentam dificuldades para detectar e conter doenças de forma precoce, além de desafios na manutenção de padrões de bem-estar animal.
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O relatório destaca que seriam necessários aproximadamente US$ 2,3 bilhões por ano para adequar os serviços veterinários aos padrões internacionais, valor equivalente a menos de 0,05% das perdas econômicas estimadas em US$ 3,6 trilhões causadas pela pandemia de Covid-19 em 2020, cuja origem provável está associada a animais, embora não haja confirmação definitiva.
A diretora-geral da WOAH, Emmanuelle Soubeyran, afirmou que os sistemas de saúde animal são centrais para a segurança alimentar, a estabilidade econômica e a saúde humana, mas seguem cronicamente subfinanciados. Ela destacou ainda que a abordagem “Uma Só Saúde” depende de maior integração da saúde animal nas estratégias globais antes da próxima crise sanitária.
Entre 2025 e 2026, mais de 2.000 surtos de influenza aviária de alta patogenicidade foram registrados em 64 países e territórios, resultando na perda de mais de 140 milhões de aves. O relatório também cita surtos inéditos de febre aftosa no sul da África, o ressurgimento da doença na Europa, a disseminação da peste suína africana e o avanço da mosca-varejeira do Novo Mundo na América Central.
De acordo com a WOAH, 75% das doenças infecciosas emergentes em humanos têm origem animal, o que torna os sistemas veterinários a principal linha de defesa contra novos surtos e possíveis pandemias. No entanto, esses sistemas enfrentam pressão crescente: 18% dos países avaliados apresentaram queda na capacidade veterinária e 22% na capacidade de profissionais de apoio.
O epidemiologista veterinário sênior da entidade, Paolo Tizzani, afirmou que a disseminação das doenças reflete também a sobrecarga das redes de vigilância e resposta, especialmente nas regiões mais vulneráveis. Segundo ele, quando os serviços são insuficientes, os surtos são detectados mais tarde, se espalham com maior rapidez e se tornam mais caros de controlar.
A análise da WOAH, baseada em 54 países e territórios, indica que seria necessário um aumento médio de 52% nos orçamentos para garantir serviços veterinários eficazes. Apesar disso, há sinais positivos: mais da metade dos países que passaram pelo programa de avaliação da entidade relataram aumento de recursos após as análises.
O relatório defende maior integração da saúde animal às políticas de saúde, economia e segurança, além de financiamento focado na prevenção de longo prazo. Também pede maior participação de instituições financeiras e do setor privado, destacando a saúde animal como um investimento estratégico.
A presidente da Assembleia Mundial de Delegados da WOAH, Susana Pombo, afirmou que os sistemas de saúde animal devem ser tratados como um bem público global. Segundo ela, em um cenário de aumento dos gastos com defesa, é necessário refletir sobre o papel da saúde animal na segurança global, já que doenças não respeitam fronteiras.
As conclusões do relatório devem orientar debates na próxima 93ª Sessão Geral da entidade, entre 18 e 22 de maio, incluindo um fórum técnico sobre investimentos em saúde animal e uma reunião ministerial com a divulgação de uma declaração conjunta sobre o tema.























