Oito dias pode ser a diferença entre lucro e prejuízo em um ano de trabalho.
Profissionalizada, suinocultura cresce e enfrenta desafios
Redação (27/04/06) – Pelo menos nas contas da À primeira vista marginal, o aumento de 2,35 para 2,48 da média anual de partos significa uma pequena revolução. Com o mesmo número de fêmeas, a Montisui agregou quase um mês de vendas da granja, hoje em 1,65 mil suínos. Esse avanço traduziu-se em uma receita extra de R$ 240 mil, que foi somada ao faturamento anual de R$ 5 milhões em 2005. “Suinocultura é cálculo, é matemática financeira”, ensina o mineiro Marcos Henrique Oliveira, 34 anos, gerente da empresa desde 1998. Em uma pequena área de 55 hectares cercada de árvores e pastos em Rio Verde, sudoeste de Goiás, a Montisui revela parte dos avanços conceituais e tecnológicos do segmento de carne suína no Brasil nas últimas duas décadas. De atividade secundária, a suinocultura passou a responder por quase metade do faturamento do grupo paulista, que detém 31 mil hectares de soja, milho, algodão e sorgo em Goiás e Mato Grosso. A evolução na produção, porém, vai além da eficiência na criação dos animais para o abate, onde o aumento da taxa de conversão de ração em peso vivo, a redução da mortalidade nas granjas e os ganhos de peso diário indicam a relevância das mudanças. Os avanços foram mais longe. Chegaram até a ponta, na industrialização da carne, passando por indústrias produtoras de insumos, nos transportadores e na mão-de-obra cada vez mais qualificada. A imagem dos chiqueirões e das pocilgas movidas a restos de comida foi substituída pela assepsia da criação à base de rações especiais para cada gênero específico. Doenças como cisticercose deram lugar a complexos conceitos de biossegurança e a um rigoroso monitoramento sanitário, que inclui cinco vacinações em 170 dias e o uso de medicamentos menos agressivos. Para entrar numa granja protegida por telas por todos os lados, é preciso tomar banho e até mesmo trocar de roupa. As transformações da cadeia começaram nos anos 1960, com a introdução de raças especializadas na produção de carne. A mudança deixou para trás o chamado “porco banha”, então usado apenas para produzir gordura animal. “O lema era: quanto mais gordo, melhor”, lembra Rubens Valentini, presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Suínos (ABCS). Depois, vieram novas técnicas de criação. E, mais importante, a organização da produção. No meio do caminho, porém, surgiu a devastadora peste suína africana, que em 1978 destruiu a nascente indústria exportadora de suínos. “Dormimos vendendo 100 mil toneladas e acordamos sem mercado”, lembra o produtor Valentini. De lá para cá, o segmento avançou para o modelo de integração entre indústria e produtores, adaptado dos EUA e herdado do sistema usado na avicultura. A revolução final viria com a divisão das etapas da criação segundo o ciclo de vida dos animais. Hoje, um produtor cuida do nascimento até o desmame dos leitões e outro, do crescimento até o animal atingir o peso ideal de abate. Com a substituição da monta natural pela inseminação artificial, a evolução genética rendeu frutos desde a década de 1980, aponta o gerente agropecuário da Em granjas mais avançadas, é possível aferir médias ainda melhores em razão de modernos sistemas de informação. “Entre 1996 e 2004, o número médio de leitões por fêmea saltou de 23,2 para 25”, afirma o economista Dirceu Talamini, pesquisador da Embrapa Aves e Suínos, em Concórdia (SC). “Em nove anos, tivemos um acréscimo de quase dois leitões por matriz. É um grande ganho de produtividade”, atesta. Nesse período, a ração mais rica e balanceada reduziu o consumo de 330 para 265 quilos por animal até o abate. E a taxa de mortalidade média dos leitões recuou de 7% para 2,5%. “Tudo isso significa redução de custo e aumento de produção e lucros”, diz Pedro de Camargo Neto, presidente da Associação da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína (Abipecs). Nas indústrias, os ganhos não foram menores. A unidade da Perdigão em Rio Verde, por exemplo, avançou em indicadores industriais mais sólidos, que resultaram em uma carne mais segura dos pontos de vista sanitário e nutricional. A empresa tem 35 granjas produtoras e 95 terminadoras integradas. São 45 mil matrizes em toda a região, onde a empresa investiu R$ 412 milhões para erguer um complexo industrial que gera cerca de 6 mil empregos diretos. A fábrica goiana trabalha seis dias por semana e abate 3,1 mil suínos por dia. “O setor avançou no bem-estar animal. A faca e a marreta desapareceram”, revela o diretor regional da Perdigão, Gilberto Orsato. Antes do abate, conta, os suínos ficam inconscientes ao passar por uma câmara de gás carbônico. “Isso evita o estresse e preserva a qualidade da carne”, justifica o executivo. Um dos grandes ganhos industriais dos avanços tecnológicos nas granjas foi a uniformidade dos animais. “A linha produz mais com menos desperdício”, diz Orsato. Esse índice caiu de 4% para zero. Ao mesmo tempo, o rendimento das carcaças cresceu de 72% para 74% no período. “Também conseguimos mais carne magra por quilo”. O índice passou de 51% par 56% em duas décadas. A automação e o mix de produtos avançou. Antes, os focos eram banha, salgados e embutidos. Hoje, são cortes elaborados, carnes curadas, defumadas, apresuntados com diferentes tamanhos e formas para atender clientes cada vez mais exigentes. Em Rio Verde, a empresa produz 100 mil toneladas de carne por ano. Detém 34,3% do mercado nacional de congelados de carne e 25,5% de industrializados de carne. “O padrão de biossegurança, uma obsessão para nós, mudou muito com a evolução tecnológica da criação em aspectos como limpeza, extremo cuidado e profissionalismo nas granjas, além dos avanços no chão da fábrica”.Leia também no Agrimídia:






















