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Transição para parto flexível pressiona custos e desafia modelo da suinocultura britânica

Mudança exige mais espaço, investimentos elevados e levanta dúvidas sobre prazos e competitividade

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Transição para parto flexível pressiona custos e desafia modelo da suinocultura britânica

A adoção de sistemas flexíveis de parto tem potencial para alterar de forma significativa a estrutura da suinocultura no Reino Unido e, por isso, exige cautela, segundo Tim Miller, da ARM Buildings, especialista no tema. Atualmente, o país apresenta divisão equilibrada entre produção em sistemas fechados e ao ar livre, próxima de 50% para cada modelo. Na Inglaterra e na Escócia, onde se concentra a maior parte da produção, a relação tende a 40% em confinamento e 60% ao ar livre, enquanto na Irlanda do Norte a criação externa de matrizes ainda é limitada.

Miller estima que, em 2019, havia entre 55 mil e 60 mil baias convencionais de parto em sistemas fechados. Desde então, cerca de 6 mil estruturas flexíveis foram instaladas, com outras mil em construção neste ano e novos projetos previstos até 2027. Ele também aponta a existência de aproximadamente 150 unidades totalmente voltadas ao sistema livre, além de outras 200 a 250 adaptadas em instalações mais antigas, muitas vezes em pequenas propriedades com raças raras.

Apesar do avanço, o especialista avalia que a expansão da produção ao ar livre pode ter atingido um limite, principalmente pela disponibilidade restrita de áreas adequadas e pela dificuldade de mão de obra. Embora esse modelo seja associado a melhores padrões de bem-estar animal, as condições de trabalho nem sempre acompanham esse nível, o que já tem levado produtores a reconsiderar a continuidade na atividade.

Ao mesmo tempo, países europeus concorrentes também avançam na adoção de sistemas de parto flexível, o que tende a elevar a exigência por padrões de bem-estar e aumentar a pressão competitiva sobre os produtores britânicos. Para Miller, a produção ao ar livre não será capaz de atender toda a demanda por carne suína no país, mantendo a necessidade de sistemas confinados. Nesse cenário, mesmo com preços mais altos para animais criados ao ar livre, seguirá existindo mercado para carne de qualidade produzida em confinamento, especialmente fora do segmento premium.

A transição, no entanto, depende de um período adequado de adaptação. Miller avalia que ainda há pouca compreensão, por parte das autoridades, dos desafios práticos enfrentados nas granjas. Entre eles está a necessidade de ampliar o espaço por matriz. Enquanto uma baia convencional ocupa cerca de 4,32 m², os modelos flexíveis utilizados atualmente variam entre 6,24 m² e 6,5 m². Ele ressalta que a área total não corresponde ao espaço livre disponível para a porca, que deve permitir movimentação completa, incluindo um raio de giro de 1,8 metro, além de área segura para os leitões.

O impacto econômico é um dos principais entraves. Cada baia flexível demanda cerca de 50% mais espaço, o que obriga o produtor a reduzir o número de animais ou investir em novas estruturas. Em uma maternidade com capacidade para 64 porcas, por exemplo, a conversão para baias de 6,24 m² reduziria a capacidade para 48, exigindo a construção de novas unidades para manter o plantel. O custo de adaptação varia entre 2.200 e 2.600 libras por vaga, somado a 6.600 a 7.000 libras por vaga para novas construções. Alternativamente, a construção de novas instalações pode custar entre 6.000 e 7.000 libras por matriz, com valores pressionados pela inflação recente.

Além dos custos, há entraves estruturais. Nem todas as propriedades dispõem de espaço para expansão, e a obtenção de licenças de construção pode levar mais de um ano. A entrega de equipamentos também enfrenta prazos prolongados, próximos de seis meses. Por isso, muitos produtores têm optado por construir novas unidades em vez de adaptar as existentes, mesmo com o investimento elevado.

Miller também defende que produtores que investiram antecipadamente em sistemas flexíveis não sejam prejudicados por futuras exigências legais mais rígidas. Segundo ele, projetos aprovados antes de eventuais mudanças devem ser mantidos, considerando que o ciclo entre planejamento e execução pode chegar a 18 meses. Ele ainda destaca riscos adicionais, como impactos na biossegurança durante obras em unidades em operação.

No campo regulatório, o cenário segue indefinido. O Departamento de Meio Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais (Defra) já indicou que a eliminação de gaiolas é uma prioridade dentro da estratégia de bem-estar animal, mas ainda não apresentou propostas concretas para as gaiolas de parto nem um cronograma detalhado. A expectativa é de uma consulta pública, sem garantia de prazo.

O governo sinaliza a intenção de retirar gradualmente as porcas das gaiolas, permitindo alternativas como o parto flexível, com confinamento apenas no momento do parto, ou o sistema livre, sem restrições durante todo o período. Atualmente, uma parcela significativa das matrizes permanece confinada desde cerca de cinco dias antes do parto até o desmame, por volta dos 28 dias, prática criticada por limitar comportamentos naturais, como a construção de ninhos.

Diante desse cenário, o setor alerta que uma transição mal conduzida pode comprometer a produção doméstica. Caso produtores deixem a atividade, a demanda por carne suína continuará sendo atendida por importações, reduzindo o controle sobre padrões de bem-estar animal. Para Miller, garantir um período de adaptação viável é essencial para evitar o fechamento de granjas, especialmente entre produtores independentes.

Fonte: Pig-world

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