União Europeia retirou o Brasil da lista de exportadores por preocupações com uso de antimicrobianos na produção animal e risco de resistência bacteriana; especialistas da Unesp explicam causas e caminhos
Antimicrobianos: entenda por que a UE barrou exportações de carnes brasileiras

A decisão da União Europeia de retirar o Brasil da lista de países autorizados a exportar carnes, aves, ovos e mel reacendeu um debate que transcende o protecionismo comercial: o uso de antimicrobianos na produção animal. Embora o impasse tenha relação com as negociações do acordo Mercosul-União Europeia, especialistas afirmam que a preocupação com a resistência bacteriana é real e cresce em peso no comércio internacional.
Pesquisadores da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Unesp esclarecem que os antimicrobianos, incluindo antibióticos, entram na produção animal para tratar doenças, prevenir infecções e, também, como promotores de crescimento — prática que está no centro das críticas europeias. “O grande ponto de interesse da União Europeia hoje é justamente o uso dos antibióticos como promotores de crescimento”, diz o professor Fábio Sossai Possebon. “Não se questiona tanto o tratamento de animais doentes, mas sim o uso indiscriminado para melhorar desempenho produtivo.”
O problema principal, segundo os pesquisadores, é o aumento da resistência bacteriana: quanto mais intenso e frequente o uso de antibióticos, maior a chance de surgirem micro-organismos resistentes aos medicamentos empregados na medicina veterinária e humana. Na prática, a preocupação europeia envolve a presença de resíduos de antibióticos nos alimentos e o avanço das chamadas “superbactérias”.
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O Ministério da Agricultura mantém programas de monitoramento de resíduos em carnes, leite e ovos, mas especialistas afirmam que o controle ainda ocorre por amostragem e que o país precisa avançar no monitoramento da resistência bacteriana ao longo de toda a cadeia produtiva. “O Brasil tem um dos melhores sistemas de inspeção do mundo e isso precisa ser valorizado. Mas historicamente somos mais permissivos no uso desses compostos do que a Europa”, afirma o professor Juliano Gonçalves Pereira. “O mercado internacional está dando um recado claro de que a resistência antimicrobiana será cada vez mais determinante nas relações comerciais.”
Os pesquisadores ressaltam que o cenário não implica, necessariamente, que os alimentos brasileiros sejam inseguros. Produtos submetidos a inspeção federal, estadual ou municipal seguem padrões sanitários rigorosos e apresentam baixo risco ao consumidor.
A resistência antimicrobiana surge quando bactérias sobrevivem ao contato com antibióticos, processo acelerado pelo uso excessivo ou inadequado desses medicamentos. “O problema é que as bactérias evoluem mais rápido do que conseguimos desenvolver novos antibióticos”, explica Possebon. Esse processo pode comprometer diretamente a saúde humana, já que uma bactéria resistente presente em alimentos pode causar infecções de difícil tratamento e elevar mortes por doenças bacterianas. Além da produção animal, o uso indiscriminado de antibióticos em humanos e o descarte inadequado de medicamentos também alimentam o problema.
Para reduzir riscos, os especialistas defendem o uso racional dos antimicrobianos, sempre com acompanhamento técnico de médicos veterinários e profissionais habilitados. “A grande recomendação é utilizar esses produtos de forma tecnificada, com orientação profissional, respeitando doses, tempo de uso e período de carência”, orienta Possebon. Eles alertam que muitos produtores ainda adotam práticas empíricas ou recorrem a antibióticos como promotores de crescimento para compensar falhas de manejo, ambiência e sanidade nas propriedades. “Às vezes o produtor usa o antibiótico como uma muleta para problemas de manejo ou falta de tecnificação”, afirma Juliano. “O caminho agora é investir em bem-estar animal, sanidade e eficiência produtiva.”
Outro ponto destacado é o descarte correto de embalagens e resíduos de medicamentos veterinários. O contato de resíduos de antibióticos com o meio ambiente pode selecionar micro-organismos resistentes. “Até o descarte inadequado de frascos pode influenciar no problema”, alerta Juliano.
No fim de abril, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) publicou nova portaria que restringe ainda mais o uso de antimicrobianos como promotores de crescimento. A medida aparece como movimento de aproximação às exigências internacionais. “Essa portaria sinaliza uma harmonização com o que já é feito na Europa”, avalia Possebon. “Ela impacta a forma de produção, mas o setor brasileiro já está tecnificado o suficiente para absorver essas mudanças.”
Os professores defendem que o debate não se reduza a uma barreira comercial. Para eles, há uma preocupação legítima envolvendo saúde pública, segurança alimentar e sustentabilidade da produção animal. “É claro que existe um componente econômico e político nessa discussão, mas a resistência antimicrobiana é um problema real”, conclui Juliano. “Quem não se adequar às novas exigências do mercado internacional vai acabar ficando para trás.”
Fonte: Mapa/Unesp/Canal Rural























