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O novo equilíbrio da economia – por Caio Megale

O mercado de trabalho menos aquecido e as concessões para investimentos em infraestrutura tendem a aliviar um pouco os gargalos de produção.

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O novo equilíbrio da economia – por Caio Megale

Nos últimos dois anos, a taxa de câmbio se desvalorizou cerca de 25% no Brasil. É um movimento significativo, mesmo levando em consideração o diferencial de inflação do Brasil para seus principais parceiros comerciais. Quais as implicações para a economia brasileira?

Há necessidade de um rebalanceamento do crescimento do país. Por conta das restrições de oferta doméstica e do novo ambiente financeiro global, com o Fed desacelerando os estímulos monetários, a demanda interna brasileira tem que crescer menos. Este rebalanceamento será induzido, entre outros fatores, pela desvalorização da taxa de câmbio. O real mais fraco provoca uma mudança de preços relativos no mercado doméstico a favor dos bens transacionáveis externamente (bens de consumo duráveis, máquinas, etc.) em relação aos não transacionáveis (serviços, alimentos in natura). A necessidade deste ajuste na economia já era conhecida pelos economistas (ver meu artigo “O desafio dos preços relativos”, publicado neste espaço em março de 2012).

A forte expansão da demanda doméstica que se observou desde 2004 era consistente com uma taxa de câmbio apreciada. O real valorizado incentivava as importações, complementando a oferta doméstica de bens. A inflação baixa dos produtos transacionáveis, combinada com uma política de contenção de preços administrados, compensavam a alta inflação de serviços e mantinham o IPCA dentro da banda de tolerância do Banco Central. O câmbio apreciado, portanto, era peça fundamental para manter o equilíbrio da economia. E o ambiente externo favorável permitia que câmbio forte não gerasse problemas no balanço de pagamentos.

O mercado de trabalho menos aquecido e as concessões de infraestrutura aliviam os gargalos de produção
Agora há necessidade de um crescimento mais moderado da demanda doméstica e um ajuste na dinâmica das contas externas. Além do câmbio, a alta das taxas de juros que vêm sendo conduzida pelo Banco Central é importante para o ajuste. Uma ajuda da política fiscal, tornando-se mais neutra, como sugere a última ata do Copom, contribuiria no processo, permitindo uma desaceleração menor do consumo privado.

Neste cenário, o mercado de trabalho provavelmente se tornará menos apertado, com ganhos salariais reais mais moderados. As vendas reais no varejo devem desacelerar, segundo nossas estimativas, de uma média de 8% ao ano entre 2004 e 2012 para algo próximo a 3% ao ano nos próximos anos. E as bagagens dos turistas brasileiros que chegam dos EUA devem vir menos abastecidas daqui em diante.

Este novo equilíbrio macro leva a mudanças setoriais relevantes. Setores ligados ao consumo corrente, que foram os grandes beneficiários da fase anterior do ciclo, agora deverão crescer menos. Isso exige de alguns segmentos, especialmente aqueles intensivos em mão de obra, como os serviços, um esforço para aumentar sua eficiência operacional, pois não será mais trivial repassar os aumentos de custos para preços ao consumidor.

A indústria, em contrapartida, volta a ganhar espaço. O câmbio mais competitivo protege contra a concorrência das importações, e, ao longo do tempo, reestimula as exportações. Este movimento é reforçado pela gradual recuperação do crescimento nos EUA e na Europa, e pela estabilização do crescimento na China. Mesmo para os produtores nacionais de bens de consumo o quadro é favorável, pois a menor competição com importados compensa parte da desaceleração da demanda.

O mercado de trabalho menos aquecido e as concessões para investimentos em infraestrutura tendem a aliviar um pouco os gargalos de produção. Importante também o esforço de melhora na produtividade e corte de custos (os chamados “projeto eficiência”) que observamos em empresas de diversos setores e níveis de faturamento. O lado negativo é que os insumos importados estão mais caros e nem sempre é possível conseguir um similar nacional.

Levando em consideração todos os fatores, os maiores beneficiários desse novo ambiente parecem ser os produtores locais de artigos para exportação, com menor parcela de insumos de produção importados. Commodities metálicas, por exemplo, que vinham perdendo mercado global sistematicamente – alguns produtores haviam interrompido as atividades – já sinalizam retomada. A agricultura, que se manteve bem mesmo durante a desaceleração da economia, continua em destaque.

O novo equilíbrio para o qual ruma a economia brasileira é positivo, e provavelmente mais balanceado que o anterior. Além disso, traz alívio a setores que se prejudicavam com a situação anterior e impõe desafios àqueles que se acostumaram com o consumo doméstico acelerado. No curto prazo, a transição aumenta a incerteza, o que vem afetando a confiança dos empresários. Mas, ao longo do tempo, boas oportunidades podem emergir neste novo cenário. É preciso concentrar esforços em ganhos de produtividade para estarmos preparados para aproveitá-las.

Caio Megale é economista do Itaú Unibanco

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