A economia mundial pós-crise e os reflexos da guerra cambial entre Estados Unidos e China, a política econômica do governo Dilma Rousseff, as fusões e os desafios do agronegócio brasileiro. Assuntos desta entrevista exclusiva com o economista Delfim Netto.
Para entender a economia em que vivemos
Aos 82 anos, o economista Antônio Delfim Netto ainda mantém uma intensa rotina de trabalho. Na esquina da Rua Armando Penteado com a Itápolis, no nobre bairro do Pacaembu, na capital paulista, funciona a sua consultoria. É uma casa e não um frio escritório. Na antessala, sempre há alguém aguardando ser atendido por ele. Com hora marcada, claro. Delfim Netto foi ministro da Fazenda entre os anos 1967-1974, período do chamado “milagre econômico”, no qual o PIB brasileiro cresceu a uma taxa média superior a 10% ao ano. Foi ainda ministro da Agricultura em 1979, mesmo ano em que deixou o cargo para ocupar o Ministério do Planejamento, onde ficou até 1985. Formado em Economia pela Universidade de São Paulo (USP), foi embaixador do Brasil na França, deputado federal e ocupou importantes cargos em órgão monetários nacionais e instituições internacionais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Além da consultoria, Delfim Netto ministra concorridas palestras, sendo referência em questões sobre política e economia, tanto nacional quanto mundial. E ainda escreve regularmente em importantes veículos de imprensa, como no jornal Folha de S.Paulo e na revista Carta Capital.
Foi ali em seu escritório, bem ao lado do Estádio Municipal Dr. Paulo Machado de Carvalho, o Pacaembu, que recebeu a reportagem de Suinocultura Industrial para uma entrevista. Delfim Netto falou sobre as fusões no setor agroindustrial brasileiro. “Quando você tem dois gigantes, seguramente se tem uma espécie de única opção. Existem cinco milhões de sujeitos vendendo boizinhos e dois comprando”. Abordou a guerra cambial entre Estados Unidos e China. “Não tem disputa Estados Unidos-China. Na verdade uma boa parte das exportações chinesas são feitas por empresas americanas que se instalaram na China porque a mão de obra era barata e os Estados Unidos abriram o seu mercado para elas”. Falou sobre o setor público brasileiro. “Quando se compara o setor público brasileiro com o setor público do resto do mundo, é uma tragédia. O setor no Brasil é gordo, adiposo. Perdeu musculatura. Ele nunca foi submetido realmente ao regime que precisava”. E outros assuntos, que você confere a seguir.
Suinocultura Industrial – O primeiro ano depois da crise financeira internacional termina com alertas e sustos, sugerindo que outros efeitos da crise poderão ser sentidos ao longo dos próximos anos. A situação das economias dos países mais desenvolvidos, notadamente a dos europeus, mas também a dos Estados Unidos, dão mostras de que tumultos financeiros periódicos parecem ser eminentes. Como o senhor avalia o cenário econômico mundial?
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Antônio Delfim Netto – A crise mundial foi uma crise financeira que atingiu o mundo inteiro. Foi uma tremenda de uma farra de endividamento. Os governos se endividaram irresponsavelmente; as famílias e as pessoas se endividaram de uma maneira muito importante. No fundo se acreditou que era possível calcular risco, ignorando um fato muito interessante. As formas de cálculo de risco envolvem certa distribuição de risco. Quando você supõe que sabe calculá-lo, o risco te estimula a aumentar a alavancagem. Ao fazer isto, você muda a curva de distribuição, até ocorrer o tal de cisne negro1. Foi uma explosão deste tipo e que acabou revelando este problema dramático do endividamento. Agora, são coisas diferentes o caso dos Estados Unidos e o caso da Europa. Os Piigs2 é um caso muito diferente. Na Irlanda, por exemplo, o Estado era hígido. O que quebrou foi o setor privado. Só que o governo irlandês foi salvar o setor privado e caiu no buraco junto com ele. De forma que cada caso é um caso, mas até agora não se resolveu praticamente nada.
SI – Por que esta demora?
Delfim Netto – Porque não se tem uma ideia clara de como enfrentar um problema como este. Como se usa a política monetária quando a taxa de juros está próxima de zero? Veja este quantitative easing3, que está sendo usado nos Estados Unidos. Há dúvidas se ele vai ter algum efeito importante. Porque o problema dos Estados Unidos não é um problema de liquidez, é de confiança. A sociedade não acredita no governo. É uma pena, porque o Obama [Barack Hussein Obama, presidente dos Estados Unidos] entrou despertando esperanças gigantescas. Fez uma coisa, que do meu ponto de vista é muito interessante, que é um plano de saúde. Mas, que os americanos rejeitaram, ou pelo menos metade dos americanos rejeitou. O mais grave não é isto. Hoje está todo mundo líquido, e ninguém investe ou compra. O que é este quantitative easing? Ele está pondo mais US$ 600 bilhões, comprando títulos do tesouro. Isto vai para a reserva dos bancos. Os bancos já têm hoje mais de um trilhão de dólares de reservas e não emprestam. E não emprestam por quê? Porque ninguém pede emprestado, o sujeito não tem confiança no futuro. Ele acha que vai perder o emprego ou que já está endividado o suficiente. Por outro lado, as empresas não financeiras têm três trilhões de dólares em caixa. E por que não investem? Porque acham que não haverá demanda.
SI – Por isto os Estados Unidos tem buscado o mercado externo?
Delfim Netto – Como não conseguiram movimentar o mercado interno – e como eles têm um problema de contas correntes importantes – decidiram duas coisas. Primeiro, ampliar os esforços para recuperar a autonomia energética, algo que tinham perdido. Este é o grande problema do século 21. E desenvolveram toda uma tecnologia para aproveitar gás. Dentro dos Estados Unidos e do Canadá eles encontraram praticamente o suprimento de energia que precisavam para cortar as importações. Por outro lado, há um grande programa de ampliação das exportações. Ou seja, não podendo resolver o problema com o aumento da demanda interna estão procurando uma saída, que é a exportação. No fundo, é isto que explica o que está acontecendo.
SI – Esta medida não pode causar novas bolhas de preço ou superoferta de créditos em países emergentes?
Delfim Netto – O que os americanos estão buscando é acelerar a desvalorização do dólar. Eles precisam desvalorizar o dólar. Não tem saída. Só que tem uma coisa. Quando eles tiveram este problema no passado, o Acordo Plaza4 ajudou a resolver. Eles conversaram com Alemanha, Japão e Inglaterra. Desvalorizaram o dólar e os outros valorizaram suas moedas. Precisou desvalorizar menos o dólar. Só que hoje o grande parceiro é a China, cuja moeda é o dólar mesmo, porque o yuan está ligado ao dólar. O que acontece? Se a China não liberar seu câmbio, os Estados Unidos precisam desvalorizar o dólar muito mais do que estão desvalorizando hoje. Então, se montou um sistema muito complicado.
SI – Especialistas indicam que a China precisaria conter não só seus estímulos econômicos como também a crescente ameaça de inflação. O senhor acredita que isto possa ocorrer?
Delfim Netto – A China tem uma capacidade imensa de crescimento. Há superinvestimentos em tudo o que é canto. Estão tentando desenvolver o seu mercado interno. É ilusão imaginar que a China possa viver sem continuar com esta agressividade. Internamente ela tem problemas muito profundos e que não resolveu. Na medida em que o país enriquece, cresce a exigência por liberdade. É uma evolução natural do homem. Se por ventura a China tivesse de promover hoje uma interrupção do crescimento, eu acho que as questões sociais emergiriam de uma forma muito séria. Nós temos que entender os dois lados, mas uma coisa é certa: a China não respeita as regras do bom comércio.
SI – Para onde esta guerra cambial entre Estados Unidos e China pode levar a economia mundial?
Delfim Netto – A economia mundial vai acabar se ajustando. Não tem disputa Estados Unidos-China. Na verdade uma boa parte das exportações chinesas são feitas por empresas americanas que se instalaram na China porque a mão de obra era barata e os Estados Unidos abriram o seu mercado para elas. É por isto que não se consegue descriminar contra a China. ‘Ah, por que os Estados Unidos não falam que a China não é uma economia de mercado e impõe uma restrição’. Porque o congresso americano é dominado pelo setor privado americano. E o setor privado americano tem todo o interesse – não os trabalhadores, o capital – em continuar este comércio com a China.
SI – Só que isto acabou desestruturando a indústria americana porque tirou…
Delfim Netto – Esta miopia está acontecendo no Brasil. É a mesma miopia de quando você mantém o dólar valorizado sobre uma moeda desvalorizada. O que isto fez? Ampliou em tamanho o setor financeiro. Emprego é no setor financeiro e no setor imobiliário. Quando a bolha explodiu, não se conseguiu recuperar os empregos. O setor financeiro nunca mais vai recuperar aquele nível… nunca mais é muito tempo. Durante um bom tempo não vai recuperar. E o setor imobiliário vai levar muito tempo para reabsorver a mão de obra que dispensou. A situação americana é delicada. Agora, é um erro pensar que os Estados Unidos vai desaparecer ou vai perder sua importância. Lá é o único lugar onde existe inovação e crédito. Os Estados Unidos vão voltar a crescer, não adianta ficar imaginando que terá uma mudança no mundo. O mundo vai mudar como tem mudado o tempo todo, mas não vai haver uma dramática mudança estrutural em um prazo de 10-12 anos.
SI – Recentemente, o Financial Times apontou que o PIB chinês deve ultrapassar o dos Estados Unidos até o final desta década e que em 2014 os chineses já terão um poder de compra maior do que o dos americanos.
Delfim Netto – Mesmo com paridade de poder de compra, o chinês tem hoje uma renda per capita de US$ 6 mil. Os Estados Unidos de US$ 40 mil. Então, uma coisa é certa. O PIB global chinês vai crescer. Para ultrapassar os americanos em 10-12 anos, os Estados Unidos não vão crescer e a China continuará crescendo 9%-10%. Eu acho as duas coisas pouco prováveis. É muito simples. Para a China continuar crescendo a 10% ao ano ela precisa arranjar um outro mundo. A China não tem água, não tem energia. E ela sabe. Por isto tenta comprar recursos naturais de outros países. Se apropriou da África e agora está aqui no Brasil. Quando você vende recursos naturais para uma empresa privada, isto não tem muita importância. Mas, quando você vende recursos naturais para um Estado soberano, isto é grave. Então, ela vai começar a sentir uma resistência, como acontece no Brasil hoje. Todo mundo aceita os chineses em todos os setores, menos no de recursos naturais. A China compete desta forma mesmo. Pegando nosso caso aqui. O que a China acabou de fazer? Cotas de exportação para fertilizantes. Os chineses não têm nenhum respeito pelas regras do comércio internacional. Para eles, a OMC [Organização Mundial do Comércio] é inexistente. E a OMC tem medo da China e permite que ela faça toda a sorte de truques.
SI – Isto não poderia levar a um atrito maior?
Delfim Netto – Não vai levar a atrito nenhum. O que acontece é que as pessoas vão se defendendo. O Brasil, por exemplo, está fazendo algumas restrições de movimento de capital. Não porque o ministro [da Fazenda, Guido Mantega] acredite que isto vai resolver o problema. É em legítima defesa. Estávamos caminhando para uma supervalorização do real, que atingiu níveis absurdos. A R$ 1,60 se consegue importar etanol dos Estados Unidos. Isto é uma prova de que está tudo errado. Era preciso que o governo se defendesse. E o governo fez. Agora, a maior injustiça é atribuir ao Guido a ideia de que ele não sabe que estas restrições têm um efeito limitado e também consequências. Ele sabe. Só que ele ia fazer o quê? Precisava fazer uma defesa mínima para dar conforto aos nossos produtores.
SI – Os setores produtivos reclamam que o dólar baixo tira a competitividade…
Delfim Netto – E é verdade.
SI – De que forma o governo brasileiro pode atenuar esta questão?
Delfim Netto – Só com este programa novo que está sendo imaginado e, que acho, será apresentado pela Dilma [Dilma Rousseff, presidente eleita do Brasil]. Você tem que enfrentar o problema fiscal. Tem que dar conforto ao Banco Central indicando que ele pode reduzir a taxa de juros real. O Brasil não é um país teratológico. Não precisa de juro real de 7%. O Brasil pode conviver com taxa de juro real de 2% a 3%. Quando ele fizer isto, elimina o principal fator especulativo: taxa de juros interna e externa. Com os dois parecidos, o câmbio volta a ser aquilo que era no passado, equilibrando a oferta e a procura de bens e serviços.
SI – O senhor acredita que a meta de 2% de juros ao fim do mandato da presidente Dilma Rousseff é possível de ser atingida?
Delfim Netto – Acho perfeitamente possível. O Brasil não é um país que precise de um câmbio, uma taxa de juros real muito diferente de 2% a 3%. Aí a única arbitragem que funciona é a arbitragem que se elimina. E, no Brasil, a arbitragem não se elimina. Por quê? Porque o Banco Central mantém a taxa lá em cima. Entra capital e não baixa a taxa. Não acumula reservas. Causa uma porção de problemas internos, mas não baixa a taxa.
SI – E em relação à inflação? Os alimentos, principalmente carnes, têm puxado a inflação para cima.
Delfim Netto – Há o efeito externo. Estas commodities estão subindo lá fora. Havia uma compensação que valorizava o real, de maneira que a transferência do preço externo e interno era menor. Isto está acabando. Os preços externos estão subindo e isto é um componente atuando na ampliação da inflação de alimentos, principalmente.
SI – Esta alta generalizada das commodities pode levar a uma nova crise dos alimentos, como no período pré-crise financeira internacional?
Delfim Netto – No caso brasileiro eu não creio. Somos um país relativamente privilegiado neste plano. Não temos nenhuma restrição de terra, de água, de solo. Desenvolvemos uma agricultura tropical extremamente competente. Os preços externos sobem, nossa relação de troca sobe. Isto tem um pequeno efeito sobre a taxa de câmbio. Valoriza a taxa de câmbio, só que o grosso da valorização da taxa de câmbio no Brasil é o diferencial de juros. Quando se eliminar este fato, o sistema vai caminhar em um relativo equilíbrio. Aí não tem o que fazer. Ou você aumenta a produtividade interna ou realmente a taxa de câmbio sobe.
SI – O novo governo terá de promover uma série de ajustes na área econômica. Entre os ajustes principais está a taxa de juros…
Delfim Netto – Não. Os ajustes têm que começar pela parte fiscal. Uma vez acertada a parte fiscal, o Banco Central tem condições de fazer uma política de redução da taxa de juros. Obviamente vai ter dificuldades. Por exemplo, se for o Alexandre Tombini, realmente como estão dizendo [para presidente do Banco Central], nós vamos estar muito bem servidos. Ele é um sujeito extremamente competente.
SI – Apesar de uma conjuntura um pouco adversa, não parece haver riscos tão diretos ao Brasil. No entanto, talvez o País não tenha à disposição o robusto crescimento do comércio mundial e dos preços das commodities, como o vivido pelo período do governo Lula. Como o Brasil pode minimizar o impacto desta instabilidade?
Delfim Netto – Uma coisa é certa na tua pergunta. Todo o vento de cauda o Lula comeu. Só sobrou vento de frente. Teremos um período muito mais difícil. Por isto, foi inteligente a decisão da presidente em conservar o Guido. Ele se comportou muito bem na crise. Há críticas totalmente injustas ao seu comportamento. Atribuem a ele coisas que ele não pensa. As pessoas aqui de fora é que imaginam que ele não sabia que o IOF não produziria grandes efeitos. Sabia, mas não tinha outra coisa a fazer. Não posso afirmar, mas penso que a presidente tem uma consciência muito clara de que, se não fizer um programa fiscal crível, a sociedade não compra a ideia. Agora, se o programa for crível e a sociedade comprar, o que ia acontecer daqui a três anos, acontece hoje. As expectativas fazem o papel de trazer o futuro para o presente. E tudo começa a funcionar na direção certa.
SI – A autonomia do Banco Central seria mantida?
Delfim Netto – O Banco Central tem que ser autônomo mesmo, mas tem que ser responsável. O que falta ao Banco Central é transparência. Ninguém quer por a mão no Banco Central, mas a sociedade tem o direito de saber os motivos dos votos de cada um dos sujeitos que está no Copom [Comitê de Política Monetária]. O voto dele implica na minha vida. Se ele aumenta os juros erradamente, quem perde o emprego sou eu. Ele está lá. Se ele diminui os juros indevidamente, a inflação quem vai pagar sou eu. Tenho o direito de saber o que ele está fazendo. Cada sujeito tem de resumir seu voto. Estou pedindo um aumento de juros por causa disto, disto e disto. 90 dias depois publica.
SI – A presidente Dilma tem reafirmado que o agronegócio será fundamental para duas questões: eliminar a miséria e tornar o Brasil a quinta economia mundial. O que teria de mudar ou se ajustar na política agrícola para se atingir isto?
Delfim Netto – Política agrícola, eu acho o seguinte. Estamos caminhando muito bem. O que nós precisamos é estabelecer de vez o sistema de seguro-safra. É o que está faltando. Em crédito as coisas estão se arrumando. O próprio setor privado ampliou este crédito. Tem os novos papéis da agricultura, que hoje operam com relativa tranquilidade. O setor é muito eficiente e absorve com muita rapidez novas tecnologias. É um setor que vai continuar recebendo o apoio do governo, tanto em pesquisa quanto em crédito. Mas acho que falta ainda um seguro de renda.
SI – Por que o senhor enfatiza tanto esta questão?
Delfim Netto – A agricultura é a atividade mais arriscada do mundo. Duas safras erradas deixam uma dívida que é insolúvel. Você nunca mais consegue recuperar. Uma coisa importante seria fazer um estudo cuidadoso deste problema e realizar um turn off5 de uma boa parte da dívida. Dívida, que se deve em boa parte ao governo, o qual agiu mal. Na verdade enganou a agricultura. Foi o caso do real. Antes do real houve uma publicidade enorme para a agricultura ampliar sua produção, disponibilidade de crédito… Quando veio o real o que aconteceu? Cortou tudo. Derrubou os preços agrícolas em quase 20% e transferiu renda da agricultura para o setor urbano, para o processo de estabilização. Tomou renda da agricultura com uma supervalorização do real. Quer dizer, aquelas dívidas não são legítimas dos agricultores. São dívidas impostas pelos erros da política econômica. Nem tanto pelos erros, mas pelo engano ao qual ela conduziu o agricultor.
SI – Ao agricultor sobrou a fama de inadimplente.
Delfim Netto – O agricultor é um cidadão comum. Não paga quando não pode. Claro que no meio dos agricultores há o mesmo nível de malandros existentes entre os banqueiros. Só que os banqueiros são malandros maiores. Então, uma parte da dívida foi produto de erros, autoenganos e conduções equivocadas. Cada vez que se precisava mobilizar a agricultura, inventava-se um chantili. Deixava-a vir comer este chantili, mas antes de ela terminar dava-se um tapa e o chantili era retirado. Quando viessem as consequências do chantili, a agricultura pagava sozinha.
SI – Quais os grandes desafios que o próximo governo terá de enfrentar no agronegócio? Infraestrutura, logística…
Delfim Netto – Isto é geral. O Brasil é um país que ao longo destes últimos 30 anos ou muito mais até, vem fazendo ajustes. Depois da Constituição de 1988 ele decidiu o quer ser: uma sociedade democrática, republicana e razoavelmente justa. Este é o programa da presidente, que combate a pobreza como, digamos, ênfase número um. É a coisa mais elementar para a constituição de uma sociedade justa. Sociedade justa se constrói dando igualdade de oportunidade entre as pessoas. A justiça não está na chegada, está na saída. Porque depois é na corrida, aí o DNA funciona, a sorte funciona. Só que todos têm que sair do primeiro lugar e ter duas pernas. Este é um programa fundamental. Esta é a grande mudança que o Brasil sofreu. Isto tudo hoje. As instituições estão funcionando. Talvez seja o único entre os emergentes que defenda realmente as liberdades individuais. O Brasil tem vantagens extraordinárias. Agora, cada vez que o governo criava um programa ele não se ajustava, empurrava o ajuste para cima do setor privado. Por isto o setor privado é hígido, musculoso. Comparando o setor privado brasileiro com o de outros emergentes, se vê que há boa paridade. Agora, quando se compara o setor público brasileiro com o setor público do resto do mundo, é uma tragédia. O setor no Brasil é gordo, adiposo. Perdeu musculatura.
SI – A quê o senhor atribui isto?
Delfim Netto – Ele nunca foi submetido realmente ao regime que precisava. A cada aperto, se escolhia quem seria apertado. Mas não se apertava a si mesmo. Esta é a grande diferença. E as consequências disto foi o abandono do papel do Estado na construção da infraestrutura. Para se ter uma ideia, quando o Brasil crescia de verdade, a carga tributária representava 24% do PIB e o governo investia 4% do PIB. Hoje, a carga tributária é 36% e o governo investe 1,5%. Quer dizer, se tem um Estado que está melhorando lentamente, mas é grande demais.
SI – O Brasil vai conseguir superar esta situação?
Delfim Netto – O Brasil vai se ajustar com um programa que eu espero seja feito. Ele tem que indicar que ao longo dos próximos dez anos será aprovada uma lei que diz o seguinte: um aumento das despesas correntes, das despesas primárias do governo menos o investimento será, digamos, 2/3 do aumento do PIB. Então, todo ano, você não vai cortar nada de ninguém. Não vai tirar bolsa-família, eliminar o Prouni. Não vai fazer nenhuma besteira, simplesmente vai reduzir o ritmo de crescimento destas despesas, aumentando a possibilidade de investimento do governo. Hoje, com os novos instrumentos, participação privada, concessões… Em oito ou dez anos, até bem menos do que isto, você coloca a infraestrutura brasileira em condições de competir com a de outros países. Temos aí dois projetos – que a taxa de retorno podemos discutir -, mas que vão ter efeito direto sobre esta infraestrutura: a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Mas, de qualquer forma, este é um problema que se terá de enfrentar.
SI – Várias megaempresas foram criadas no Brasil no setor de agronegócio/alimentos. BRF, Marfrig/Seara e JBS/Friboi, por exemplo. Esta concentração de mercado é um processo natural dentro de uma economia emergente que tem crescido, como a brasileira? E para o mercado interno, esta concentração é boa?
Delfim Netto – Há dúvidas. Pegue o caso da pecuária. Quando você tem dois gigantes, seguramente se tem uma espécie de única opção. Existem cinco milhões de sujeitos vendendo boizinhos e dois comprando. Claro que isto é uma caricatura, só que é mais ou menos o que acontece. Nós sabemos que a pecuária tem dentro de si um ciclo. Boi não é brinquedo e quem tenta ser gigolô de boi se dá muito mal. É o que está acontecendo agora. Nós temos que analisar estes mercados porque diante de um fato com este, acontece o que está acontecendo em outros países… Proíbo a exportação de carnes. Quebra tudo.
1Um acontecimento altamente improvável que reúne três características: é imprevisível, produz um enorme impacto e, depois de ocorrido, é arquitetada uma explicação que o faz parecer menos aleatório e mais previsível do que aquilo que é na realidade. A relação com a ave é que é altamente raro o nascimento de um cisne negro.
2Na sigla em inglês, é um acrônimo com as iniciais dos países europeus: Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha.
3Com a taxa de juros de curto prazo próxima de zero, aumentar a liquidez via redução da taxa básica não funciona. Uma das estratégias é ampliar o balanço do Banco Central para além do necessário para assim manter a taxa de juro básica no nível zero. Isto é chamado quantitative easing, que pode ser traduzido como afrouxamento monetário.
4Assinado em 1985 em Nova York pelos países que integravam o G5: Estados Unidos, Japão, Alemanha, França e Inglaterra. Como agora, os americanos acumulavam grandes déficits comerciais. Pelo acordo, os Estados Unidos desvalorizaram o dólar tendo como contrapartida a apreciação do iene, moeda japonesa, o que evitou uma “guerra cambial” na época.
5No caso, uma “desativação” da dívida.




















