A nova atualização do Zoneamento Agrícola de Risco Climático traz mudanças significativas nas janelas de plantio para muitos municípios
Atualização do Zoneamento Agrícola de Risco Climático altera janelas de plantio em quase 60% dos municípios

A atualização do Zoneamento Agrícola de Risco Climático, que completa 30 anos, trouxe mudanças relevantes para o planejamento da produção agrícola no país. De acordo com os dados mais recentes, 58,9% dos municípios brasileiros passaram por alterações nas janelas de plantio, o que corresponde a 3.285 das 5.569 cidades analisadas.
A revisão será tema da 9ª Reunião da Rede de Pesquisa do Zarc e incorpora uma nova base histórica de dados climáticos, agora considerando o período entre 1992 e 2022. A atualização substitui a série anterior, que abrangia os anos de 1983 a 2013, ampliando o volume de informações e refinando a análise de risco para diferentes culturas.
Mudanças refletem novos padrões climáticos e maior base de dados
Segundo pesquisadores da Embrapa Agricultura Digital, a atualização foi possível graças ao aumento no número de séries históricas analisadas, que passou de 3,5 mil para 4,2 mil conjuntos de dados. Embora o estudo não tenha como foco principal as mudanças climáticas, os resultados indicam alterações importantes nos padrões de temperatura e precipitação em diversas regiões do país.
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Entre os principais destaques estão a redução das chuvas no início da estação chuvosa no Brasil central e mudanças no regime hídrico da região Sul, com queda de precipitação em abril e aumento em outubro. Além disso, foi observado aumento médio de 5% na temperatura e de 10% na evapotranspiração, fatores que influenciam diretamente o desempenho das lavouras.
Redução de janelas de plantio preocupa regiões produtoras
Do total de municípios com alterações, 1.474 registraram redução na janela de plantio, especialmente em áreas do Sudeste e Nordeste, com destaque para zonas de transição entre a Zona da Mata e o semiárido. Esse encurtamento tende a dificultar a viabilidade da segunda safra, elevando riscos para o produtor, especialmente em operações financiadas ou seguradas.
A janela considerada ideal para sistemas produtivos com soja e milho envolve, no mínimo, 13 decêndios. Em algumas localidades, esse período foi reduzido, encurtando o ciclo produtivo e exigindo maior precisão no calendário agrícola.
Por outro lado, 1.811 municípios apresentaram ampliação da janela de plantio, principalmente nas regiões Norte e Sul. Ainda assim, especialistas alertam que esse saldo positivo não deve ser analisado de forma isolada, já que reflete também a ampliação da base de dados utilizada na atualização.
Impactos no crédito rural e políticas públicas
O Zarc é referência para a definição de políticas públicas ligadas ao crédito e ao seguro rural, como o Plano Safra, o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural e o Programa de Garantia da Atividade Agropecuária. Alterações na classificação de risco podem influenciar diretamente o acesso ao financiamento e às coberturas de seguro.
A classificação de risco “moderado”, por exemplo, indica probabilidade de até 40% de perdas na segunda safra e serve como limite para concessão de crédito em determinadas linhas. Com a atualização, houve aumento líquido de municípios nessa categoria, indicando maior pressão sobre o sistema produtivo.
Nova metodologia deve integrar clima e manejo no campo
Como próximo passo, a Embrapa trabalha na implementação do chamado ZarcNM, que incorporará variáveis relacionadas ao manejo do solo na análise de risco climático. A proposta é avaliar de forma integrada fatores ambientais e práticas agrícolas, permitindo uma classificação mais precisa das lavouras.
A iniciativa também prevê a diferenciação no acesso a crédito e seguro rural, com incentivos para produtores que adotem boas práticas de manejo e conservação de recursos naturais. Testes realizados no âmbito do PSR já indicaram que grande parte dos produtores ainda apresenta níveis considerados baixos de manejo, o que representa um desafio para a ampliação da política em escala nacional.
A atualização do Zarc reforça a necessidade de adaptação da agricultura brasileira a um cenário climático mais restritivo, exigindo maior planejamento e adoção de tecnologias para mitigar riscos e garantir a sustentabilidade da produção.
Referência: Globo Rural/Valor Econômico





















