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Mercosul está ameaçado pelas tarifas e pela política dos EUA

Análise aponta como a deterioração diplomática entre Brasil e Argentina, somada ao alinhamento de Javier Milei a Donald Trump, põe em risco a união aduaneira

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Mercosul está ameaçado pelas tarifas e pela política dos EUA
Há cerca de 35 anos, em meio a um período de instabilidade na América do Sul, a assinatura do Tratado de Assunção fundava o Mercado Comum do Sul (Mercosul). A iniciativa visava promover o desenvolvimento econômico e a integração regional entre Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. Embora o comércio intra-bloco tenha multiplicado por dez entre 1991 e 2024, o projeto nunca atingiu plenamente seu potencial devido a recorrentes dificuldades macroeconômicas nos países membros.
Hoje, a sobrevivência do bloco é indispensável para garantir poder de barganha aos seus integrantes no cenário global. Contudo, o Mercosul enfrenta um risco iminente de implosão impulsionado pela deterioração das relações entre seus dois maiores integrantes, Brasil e Argentina, e pela interferência da política externa norte-americana.

 Visão Geral dos Pontos de Tensão no Bloco

Frente de CriseDinâmica PrincipalImpacto no Mercosul
Relações BilateraisConflito político contínuo entre Luiz Inácio Lula da Silva e Javier MileiParalisia diplomática e falta de coordenação no bloco
Política dos EUABenefícios à Argentina (tarifas e linha de swap) vs. punições ao Brasil (tarifas via Seção 301)Fragmentação da política externa comum
Tarifa Externa Comum (TEC)Acordo unilateral EUA-Argentina reduz alíquotas para produtos americanosRisco de triangulação de mercadorias e enfraquecimento da união aduaneira
Acordos GlobaisViolação da regra de negociação conjunta em blocoPerda de capacidade de negociação com UE, EFTA, Canadá e Japão

Deterioração diplomática entre Brasil e Argentina

A crise política entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Javier Milei intensificou-se a partir de 2024:
  • Declarações e Ausências: Milei classificou o bloco como uma “prisão” e declarou que a Argentina buscaria a liberalização comercial de forma independente. O presidente argentino também não compareceu à cúpula de líderes em Assunção em meados de 2026.
  • Atritos Políticos: O apoio público de Milei à oposição brasileira em eventos políticos levou o Ministério das Relações Exteriores do Brasil a denunciar a conduta como uma ingerência sem precedentes.
  • Distanciamento Formal: O impasse resultou na convocação do embaixador brasileiro, sem pedidos de desculpas da diplomacia argentina. Os chefes de Estado de Brasil e Argentina não realizaram encontros bilaterais nem conversas telefônicas diretas desde a posse de Milei em dezembro de 2023.

Tratamento assimétrico da administração Trump

Os pilares econômicos do Mercosul sofreram forte impacto com as medidas adotadas pelo governo de Donald Trump no início de 2026, com a aplicação de políticas opostas para os dois maiores membros do bloco:
  • Argentina: Washington assinou um acordo bilateral que removeu tarifas sobre 1.675 itens tarifários e ampliou a cota de carne bovina para 100 mil toneladas, em troca de acesso preferencial a produtos norte-americanos. Adicionalmente, o Tesouro dos EUA concedeu uma linha de swap de US$ 20 bilhões à Argentina para aliviar a escassez de divisas do país.
  • Brasil: O país sofreu retaliações comerciais. Após a derrubada de uma tarifa punitiva de 50% pela Suprema Corte dos EUA, o governo norte-americano impôs uma alíquota de 25% com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, somada a uma tarifa adicional de 12,5% sob investigações ligadas a exigências trabalhistas.

Erosão da Tarifa Externa Comum e das negociações conjuntas

O acordo bilateral firmado entre Estados Unidos e Argentina atinge diretamente a Tarifa Externa Comum (TEC), o pilar de sustentação da união aduaneira. O mecanismo exige tarifas padronizadas para produtos importados de terceiros países, garantindo a livre circulação de bens na região.
Com a Argentina aplicando tarifas preferenciais a cerca de 200 produtos norte-americanos enquanto o Brasil tributa os mesmos itens em 25%, surge o risco de triangulação de mercadorias via fronteira argentina. Esse desvio força a imposição de fiscalizações fiscais e certificados de origem na fronteira interna, comprometendo a fluidez do comércio regional.
De acordo com Mônica de Bolle, pesquisadora do PIIE, “as exceções à união aduaneira geralmente eram limitadas em número e autorizadas conjuntamente, não adotadas unilateralmente por um país contra a objeção de outro. O acordo entre a Argentina e os Estados Unidos representa uma substituição completa da tarifa comum.”
A quebra da regra de negociação conjunta (em vigor desde 2000) também afeta os acordos internacionais do bloco:
  • União Europeia: Com aplicação provisória iniciada em maio de 2026, o acordo aguarda avaliação do Tribunal de Justiça da UE quanto à sua estrutura jurídica.
  • EFTA, Canadá e Japão: Tratados assinados ou em negociação perdem poder de barganha à medida que membros negociam termos individuais com grandes potências.

Cenário eleitoral no Brasil e o futuro do bloco

A disputa presidencial brasileira de outubro de 2026 insere novas variáveis sobre o futuro da integração regional:
  • Cenário de Reeleição de Lula: O governo tende a manter a defesa da institucionalidade do Mercosul, atuando em um ambiente diplomático adverso diante da oposição do governo argentino e das barreiras tarifárias norte-americanas.
  • Cenário de Vitória de Flávio Bolsonaro: Em manifestação enviada ao Representante Comercial dos EUA (USTR) durante as audiências da Seção 301, o candidato defendeu que o Brasil deveria “se libertar das amarras do Mercosul” para negociar acordos bilaterais diretos com Washington, em linha com a postura adotada por Buenos Aires.
A preservação da união aduaneira requer uma deliberação urgente sobre os efeitos do acordo EUA-Argentina em relação à tarifa comum. A desintegração do Mercosul não exige a saída formal de seus membros; ela pode se consolidar gradualmente por meio da perda de aplicação das suas regras comunitárias.
Fonte: PIIE
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