Publicação da Embrapa aponta potencial de raças como Piau, Moura e Nilo-Canastra, mas alerta para entraves regulatórios, falta de crédito e ausência de política agrícola voltada aos pequenos produtores
Raças nacionais de suínos ganham atenção como saída para segurança alimentar e produtos de valor agregado

A Embrapa publicou um comunicado técnico que destaca a importância das raças nacionais de suínos para a segurança alimentar nas comunidades rurais e para a fabricação de produtos de valor agregado no Brasil. O material é assinado por Elsio Antonio Pereira de Figueiredo, Teresinha Marisa Bertol e Cícero Juliano Monticelli e serve de base para entender o potencial e os desafios desses animais no país.
A publicação reúne histórico, características produtivas e os obstáculos para ampliar a criação dessas raças, como Piau, Moura e Nilo-Canastra. O foco está no papel desses animais tanto na alimentação das famílias rurais quanto na produção de itens diferenciados, com maior valor comercial.
O estudo recupera a origem das raças naturalizadas no Brasil, formadas ao longo de séculos de adaptação, e mostra que elas foram fundamentais para o sustento de comunidades rurais em diferentes regiões. Segundo o comunicado, essas raças têm rusticidade, adaptação ao ambiente e aptidão para sistemas extensivos ou semiextensivos, características que as mantêm relevantes tanto para a segurança alimentar quanto para modelos produtivos voltados à gastronomia e ao turismo.
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Apesar do potencial, o relatório da Embrapa aponta obstáculos importantes para que essas raças avancem em escala comercial. Entre eles estão a falta de uma política agrícola que favoreça iniciativas de pequena escala, as exigências sanitárias e normativas pensadas para grandes cadeias produtivas, a escassez de assistência técnica e de crédito e a dificuldade de legalização de criatórios menores. Na avaliação do pesquisador Elsio Figueiredo, esse conjunto de barreiras limita o desenvolvimento do setor e afasta pequenos produtores de um mercado com potencial de crescimento.
“Além do que temos falta muita coisa. Não temos uma política agrícola que valorize essas iniciativas, pelo contrário a normatização para atender o comércio exterior conduz os empreendimentos para grande escala, logística difícil, falta de assistência e crédito para pequenos empreendedores”, afirmou. “Falta também uma parte cultural dos nossos produtores que se contentam com a produção apenas para o consumo doméstico e não enfrentam os desafios de legalizar as suas criações nas normativas.”
Em entrevista ao Portal Agrimídia, o pesquisador também comentou sobre o excesso de barreiras impostas por órgãos sanitários e a dificuldade de adaptação das regras à realidade de pequenas granjas e agroindústrias. “A primeira reação das autoridades sanitárias é vetar tudo o que não está na cartilha. Inclusive as exigências para construções de granjas, abatedouros, fábricas de pequena escala”, disse. Segundo ele, os poucos casos de sucesso concentram-se em estruturas já consolidadas em alguns estados, mas isso ainda não se traduz em uma política nacional capaz de ampliar o acesso dos pequenos criadores.
Ao tratar da convivência entre a função alimentar das raças nacionais e sua vocação para produtos premium, Elsio defendeu o fortalecimento dos sistemas produtivos nas comunidades rurais. “Para conciliar esse duplo papel é necessário elevar o nível dos sistemas produtivos das comunidades rurais. Primeiro é necessário isolar os animais de produção das demais espécies animais da propriedade. Segundo é necessário seguir um protocolo de boas práticas de produção mesmo em pequena escala. Acredito que se houver um sistema de extensão rural com crédito atrelado aos projetos familiares essa parte pode ser conciliada”, afirmou.
O comunicado técnico também sustenta que a valorização dessas raças depende de padronização produtiva, rastreabilidade, boas práticas de manejo e conservação genética. O texto cita ainda a necessidade de núcleos de conservação e de programas que permitam organizar a oferta de material genético, além de aproximar a produção rural de mercados especializados, como feiras gastronômicas, restaurantes e nichos ligados ao turismo.
A publicação da Embrapa coloca as raças nacionais de suínos em um ponto estratégico: de um lado, como patrimônio genético e ferramenta de segurança alimentar nas comunidades rurais; de outro, como base para produtos com maior valor comercial. Para o estudo, transformar esse potencial em realidade depende menos da genética dos animais e mais da capacidade do país de criar condições técnicas, regulatórias e econômicas para que pequenos produtores consigam permanecer na atividade e alcançar mercados mais exigentes.
O relatório técnico “A importância das raças nacionais de suínos para a segurança alimentar nas comunidades rurais e para a fabricação de produtos suínos de valor agregado no Brasil”, pode ser acessado na íntegra aqui.























