Mudança no Código Florestal enfraquece Brasil na COP-15. Novo código vai contra preservação do meio ambiente.
Código vs COP-15

Ao mesmo tempo em que cobra comprometimento na redução das emissões de gases de efeito estufa, o Brasil discute, internamente, mudanças no código florestal que vão contra a preservação do meio ambiente. A dissonância entre discurso internacional e prática interna enfraquece a participação do País, que pretende assumir um papel de liderança na COP-15 (Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas), segundo especialistas.
A conferência, que acontece entre 7 e 18 de dezembro, em Copenhague, Dinamarca, busca definir novas metas de redução de emissões de gases que contribuem para o aquecimento global. O acordo resultante do encontro deve entrar em vigor em 2012, ano de vencimento do Protocolo de Kyoto, que estabeleceu como meta a redução de 5% dos gases de efeito estufa produzidos no mundo.
Para Copenhague, o Brasil vai levar a proposta de diminuir entre 36,1% e 38,9% suas emissões em relação ao quanto emitiria em 2020 se nada fosse feito. O País também deve apresentar 18 projetos de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação (REDD), já em execução, como modelo para os demais participantes. No entanto, até agora não há definição sobre os recursos para levar os projetos adiante. O governo brasileiro vê no evento uma oportunidade de angariar recursos junto aos países desenvolvidos para esse fim.
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Caso as mudanças no Código Florestal sejam aprovadas pelo Congresso, porém, os países mais ricos devem mostrar resistência em financiar a redução do desmatamento em território brasileiro. O projeto, em tramitação na Câmara, prevê que as reservas legais sejam reduzidas dos atuais 80% para 20% em propriedades na Amazônia.
Na mesma semana em que anunciou a meta de redução, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva prorrogou o decreto da reserva legal, o que deu aos produtores mais 18 meses para se adequar às regras de preservação das reservas determinadas por lei. Se vigorasse agora, o decreto colocaria 3 milhões de produtores na ilegalidade.
Na contramão
“As mudanças no código florestal estão completamente na contramão do que o Brasil pode ganhar com COP-15. Elas vão comprometer de forma irreversível as possíveis conquistas da conferência”, afirmou Mario Mantovani, diretor de Relações Institucionais da Fundação SOS Mata Atlântica, que acompanha no Congresso as discussões sobre a legislação ambiental e participa da convenção em Copenhague.
Segundo Mantovani, os países desenvolvidos só vão investir no Brasil se tiverem a garantia de que o país não vai desmatar as florestas, o que é dificultado pelas brechas previstas na alteração da legislação ambiental. “O governo está andando num limite perigoso entre expor o Brasil a ficar fora desses mecanismos [de financiamento] e atender a esses ruralistas atrasados”, disse, em referência à bancada ruralista que vem sustentando as alterações no Congresso. Segundo inventário oficial apresentado neste ano, mais da metade das emissões, que aumentaram 62% em 15 anos, entre 1990 e 2005, é causada pelo desmatamento nas florestas amazônicas e do cerrado.
Para Aron Belinky, coordenador executivo da Campanha TicTacTicTac, as mudanças em discussão mostram o lado negativo da posição ambivalente do País na questão ambiental. “O fato de o Brasil ter uma legislação nacional fragilizada pode, sim, enfraquecer a posição do País como liderança internacional, pois esse nível de coerência é o que se espera naturalmente de um País que está puxando liderança”, afirmou. O coordenador ressalta que o fato prejudica as entidades ambientalistas. “Nós queremos que o Brasil seja uma boa liderança e que possa fazer valer essa posição e melhorar também as políticas internas”.
Anistia
O substitutivo da legislação ambiental também propõe anistia aos donos de terras que desmataram até 31 de julho de 2006. Tecnicamente, o caráter retroativo não é contraditório com as metas anunciadas para a COP-15, segundo Fernando Tabet, professor de direito da FGV e especialista em legislação ambiental, já que a proposta brasileira é de reduzir o desmatamento e não de recuperar as áreas já desmatadas. Tabet considera, porém, que, devido à grande exposição pública proporcionada pelo evento, “haveria uma repercussão negativa e toda posição de vanguarda do Brasil seria colocada em cheque”, caso a anistia se confirme.
Branca Americano, diretora da Secretaria de Mudanças Climáticas do Ministério do Meio Ambiente, não vê contradição, já que a principal oferta brasileira em Copenhague é a redução do desmatamento. A diretora destaca que não há somente promessas externas, mas práticas atuais na área do meio ambiente. “Em 2009, houve a menor taxa de desmate em 20 anos”, afirmou. “Esse ano nós já atingimos o que deveríamos fazer em 2015″.
Americano, no entanto, discorda da anistia irrestrita proposta nas mudanças da legislação ambiental. “Talvez não seja o ideal, mas é o que vai ser possível para a sociedade brasileira – olhar para frente e seguir de uma outra forma para o futuro”.























