Lideranças setoriais descartam ruptura imediata nos contratos agrícolas e apostam na continuidade tributária, mas apontam cautela entre investidores brasileiros
Renúncia de Peña e colapso bancário colocam agronegócio paraguaio em alerta sobre crédito, câmbio e investimentos

A renúncia do presidente do Paraguai, Santiago Peña, motivada pela crise no sistema financeiro desencadeada pelo colapso do Ueno Bank, gerou um compasso de espera no agronegócio e entre investidores estrangeiros que operam no país. Embora representantes do setor produtivo não identifiquem impactos diretos imediatos nas lavouras ou nos contratos vigentes, a capacidade das instituições paraguaias de conter os desdobramentos políticos, estabilizar o mercado financeiro e assegurar a segurança jurídica tornou-se o foco central das atenções da cadeia agroindustrial.
A crise bancária ganhou contornos institucionais após denúncias de que o Ueno Bank, instituição originada de uma empresa de factoring, teria recebido concessões fora dos manuais operacionais do Banco Central do Paraguai, com suposto envolvimento de decisões políticas e menções ao Fundo Monetário Internacional (FMI). A diretora-sócia da DASAGRO, Esther Storch, pontuou que o banco detinha cerca de 3 milhões de clientes em um país de 6,1 milhões de habitantes, além de custodiar aproximadamente US$ 850 milhões em depósitos públicos, incluindo verbas da previdência estatal. O avanço de acusações de desvio de recursos, conflito de interesses e o risco de perdas para fundos de aposentadoria de trabalhadores dos setores público e privado aceleraram o processo de impeachment que culminou na saída de Peña.
Apesar da turbulência, dirigentes do setor descartam uma ruptura macroeconômica. O presidente da Associação dos Produtores de Soja, Oleaginosas e Cereais do Paraguai (APS), Lindemar Cesca, avalia que a sucessão pelo vice-presidente preserva a orientação do mesmo grupo partidário, assegurando a continuidade de marcos econômicos, como o Imposto sobre Valor Agregado (IVA) fixado em 10%, com horizonte de estabilidade até o ciclo eleitoral de 2027 e as eleições de 2028: “Com a renúncia do presidente do Paraguai, a instabilidade política acredito que não vai ter, porque as soluções são rápidas aqui. O Congresso está reunido neste momento e provavelmente vai aceitar a renúncia do presidente e, na sequência, já vai nomear o vice como presidente. Então, a questão política não vai mudar, mesmo porque continua o mesmo partido. As ideologias, tudo continua igual.”
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No meio corporativo, a resposta institucional tem sido monitorada de perto por companhias com operações transfronteiriças. Durante o evento BrasilAgro Day, o presidente da BrasilAgro, André Guillaumon, que administra ativos no país vizinho por meio da Fazenda Morotí, no Chaco, afirmou que “o que aconteceu hoje no Paraguai mostra que o país é sério”, reforçando que transições conduzidas dentro do ordenamento legal preservam os contratos e as regras vigentes. Por outro lado, analistas ressaltam que, embora o sistema financeiro local mantenha mecanismos de proteção — como o fundo garantidor de depósitos, com cobertura estimada em cerca de R$ 225 mil por correntista em até 15 dias, segundo o produtor Neivo Fritzen —, a concessão de novas linhas de financiamento pode passar por critérios mais rigorosos.
A liquidez do crédito desponta como variável sensível para o custeio de safras, compras de insumos e capital de giro de cooperativas, cerealistas e frigoríficos. Concomitantemente, a dinâmica cambial é monitorada pelos produtores de grãos: com vendas e insumos cotados em moeda norte-americana e despesas operacionais (como folha de pagamento, fretes e diesel) liquidadas em guaranis, a recente desvalorização do dólar frente à moeda paraguaia havia encarecido os custos locais em 25% a 30%, mantendo aberta a discussão sobre os efeitos de curto prazo da crise nas cotações cambiais. Na esfera dos investimentos, a perspectiva predominante é de retenção temporária de novos aportes para expansão e compra de terras até a consolidação da nova gestão, sem cancelamento de projetos em andamento ou de iniciativas estruturantes, como o Corredor Bioceânico Sul-Oeste, orçado em US$ 286 milhões.
Fonte: CNN Brasil






















