Colunista a define como a mais artística de todas as ciências e a mais científica de todas as artes.
A economia é coisa séria
Em tom de brincadeira, definiu-se a economia como a mais artística de todas as ciências e a mais científica de todas as artes. Mas o que é a economia? A dificuldade de definição envolve a nebulosidade do seu objeto. No fundo, como disse o professor Alfred Marshall, que lhe deu o nome de economia (“economics”, em lugar do até então tradicional “political economy”), ela objetiva a análise e a compreensão do comportamento da humanidade na sua forma costumeira de ganhar a vida. Ela é um sistema de organização do pensamento para entender a ação dos indivíduos na sua atividade econômica e auxiliar o Estado a escolher os caminhos mais adequados para manter em relativa harmonia o comportamento coletivo.
Durante muito tempo fui honrado com convites do Colégio Dante Alighière para participar de uma interessante experiência anual que ocupava um sábado. Destinava-se a ajudar os estudantes que iriam prestar o vestibular a escolherem a sua profissão. Como subproduto, dava-nos a oportunidade de encontrar inteligências excepcionais que se transformavam em verdadeiros objetos cobiçados de cooptação profissional.
Para mostrar o objeto e o encanto especial da economia, pedia aos ouvintes que largassem livremente o lápis que tinham na mão e verificassem, sem nenhuma surpresa, que ele caía ao chão. A pergunta era: por que isso acontecia? A resposta pronta da maioria era que tal resultado era produto da gravidade. Eram mesmo capazes de determinar a velocidade a aceleração e o tempo que o lápis levou para chegar ao chão. Vinha então a provocação: há alguém capaz de “explicar” (isto é, de entender e medir) como esse lápis veio parar na sua mão? Como foi possível você ir à loja (o “mercado”) e comprar o lápis (basicamente uma manipulação de madeira e grafite) que satisfaz às suas necessidades escolares? Quem teve a ideia de produzi-lo (o empresário)? Como foi que ele o produziu (problema técnico)? Quem ele estava pensando satisfazer com sua produção (o consumidor)?
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A economia procura organizar o nosso conhecimento para entender alguns fenômenos misteriosos como esse: por que alguém decidiu plantar uma árvore (talvez na Malásia) para fornecer a madeira? Por que alguém produziu o grafite (talvez na Alemanha) utilizado no lápis? E acima de tudo, como alguém (o empresário), anos depois teve a ideia de juntar esses elementos numa inovação (um novo produto) que supunha seria útil – o lápis – e correu o risco de produzi-lo na esperança de vendê-lo em qualquer esquina (o mercado)?
Tentar “explicar” esse fenômeno levou os economistas em dois séculos (desde o último quartel do século XVII quando o pai da economia política, Adam Smith, publicou o seu famoso “A Riqueza das Nações”) a construírem um sofisticadíssimo aparato teórico apoiado na matemática. Esse ramo do conhecimento, a que se dá o nome de “microeconomia”, é extremamente útil para que o processo produtivo seja eficiente (a maior quantidade de produto – lápis – com uma dada quantidade de insumos – mão de obra, madeira e grafite – ) e corresponda aos desejos dos consumidores. Mas a explicação desse mistério não esgota a economia.
Para sobreviver, a sociedade precisa de uma organização – o Estado – capaz de prover alguns bens públicos: ordem, segurança, justiça, infraestrutura, assistência aos desvalidos e estabilidade do valor da moeda, que o sistema de mercado não pode produzir. Para financiar os seus serviços o Estado cobra um imposto sobre tudo o que é produzido. Estabelecer o sistema tributário, dar-lhe justiça, eficiência e equanimidade é outro objeto da economia. No lápis do nosso exemplo, o imposto vale no Brasil cerca de 40%. Isso significa que no lápis de 17 centímetros que cada um tem na mão, nada menos do que 7 foram apropriados pelo Estado!
Com um nível tão grande de recursos em suas mãos o Estado acaba exercendo uma influência decisiva na distribuição e no consumo de todos os bens e serviços produzidos pela coletividade (o chamado Produto Nacional Bruto) e no volume de emprego. Estudar as consequências da ação do Estado na captura desses recursos (tamanho, natureza e qualidade dos impostos) e nos seus dispêndios (gastos com custeio, assistência social, investimento e emprego) é objeto de outro ramo da economia, a “macroeconomia”.
Com todas as dificuldades ainda existentes é inegável que a economia avançou muito na compreensão do papel conjunto do setor privado e do Estado na boa condução da política econômica. Eles devem cumprir o papel de maximizar a eficiência produtiva dentro de um ambiente de robusto crescimento econômico e do nível de emprego, de estabilidade do valor da moeda e do controle do endividamento interno e externo. Recusar esses conhecimentos classificando-os como “produto ideológico da teoria neoclássica”, como parece ser a inclinação atual de algumas tribos de economistas, transforma-as num bando de perigosos jejunos.
Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.























