Em reunião da Bolsa de Suínos do Estado de São Paulo , promovida peça APCS, diretor executivo da Agroceres PIC comentou os contatos recentes de grupos chineses interessados em produzir suínos em escala no Brasil
Chinesas “escutam e perguntam”, mas não têm plano concreto para o Brasil, diz Alexandre Rosa

Empresas chinesas do setor suíno têm mantido contato com o mercado brasileiro, mas ainda sem qualquer proposta concreta de investimento no país, segundo Alexandre Rosa. O executivo disse ter tido contato direto com duas dessas companhias nos últimos 12 meses e descreveu o movimento como uma aproximação de escuta e levantamento de informações, sem desdobramento prático até o momento.
A empresa citada por nome foi a Muyuan, que, segundo Rosa, esteve presente com estande próprio no Siavs, em São Paulo, no início de agosto — ocasião em que o executivo intermediou uma conversa entre representantes da companhia e o governo do Mato Grosso do Sul. Segundo ele, a Muyuan já havia visitado também Mato Grosso e Goiás.
De acordo com Rosa, o pano de fundo desse movimento é uma determinação do governo chinês para que o país reduza entre 3 milhões e 5 milhões de fêmeas de seu plantel nacional nos próximos três a quatro anos, com metas específicas distribuídas entre as dez maiores empresas do setor — entre elas, a própria Muyuan. Segundo o executivo, a companhia já teria reduzido seu plantel de cerca de 3 milhões para uma faixa entre 2,2 milhões e 2,3 milhões de fêmeas.
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Rosa afirmou que a Muyuan atravessa mais de um ano de resultados negativos, fez uma pequena parceria nas Filipinas e, no Brasil, estabeleceu contatos por meio de uma empresa que é cliente da sócia asiática da Agroceres PIC, além de conversas com o governo do Mato Grosso do Sul.
Dificuldade de leitura das intenções chinesas
O executivo descreveu dificuldade em avaliar as reais intenções dos grupos chineses, citando uma “dificuldade cultural” apesar da presença já consolidada de capital chinês em outros setores no Brasil, como o automobilístico e o de grãos. Segundo Rosa, um investimento direto e verticalizado em suinocultura exigiria imobilização elevada de capital e forte coordenação — e, na sua leitura, o sistema tributário brasileiro representa um ponto de maior dificuldade para esse tipo de investidor.
Por isso, sua avaliação é que, caso ocorra entrada de capital chinês no setor, o caminho mais provável seria uma parceria ou aquisição de participação em empresas já existentes — modelo que ele comparou ao adotado por grupos espanhóis, citando a parceria entre a Vall Companys e uma empresa que identificou como “Master”. Segundo Rosa, o diferencial de grupos espanhóis é o acesso já consolidado a mercados premium como Japão e Coreia do Sul, a capacidade de agregar valor à cadeia industrial e uma proximidade cultural maior com o Brasil — reconhecendo, segundo ele, que a produção brasileira já opera em alto nível e que o valor agregado espanhol se concentraria na etapa industrial.
“É ano eleitoral”: posição de espera da Muyuan
Segundo Rosa, o comentário mais recente recebido de representantes da Muyuan foi de que a empresa aguardaria o desfecho do processo eleitoral brasileiro antes de definir qualquer movimento. Ele foi categórico ao afirmar que, até o momento, não há nada concreto — nem propostas formais, nem preferência declarada por estados — e que o comportamento observado é de escuta, perguntas e levantamento de informações, sem sinal de decisão de investimento.
Rosa citou como ilustração da complexidade regulatória brasileira o exemplo da própria Agroceres PIC — empresa brasileira com sócia americana —, cujo departamento de contabilidade e fiscal tem, segundo ele, o triplo de funcionários do departamento equivalente da parceira nos Estados Unidos, ainda que o plantel americano (6 milhões de fêmeas) seja três vezes maior que o brasileiro (2 milhões de fêmeas). Ele mencionou ainda que outras empresas estrangeiras — citando casos anteriores em suínos e aves, sem identificá-las — já tentaram produzir no Brasil e deixaram o país após um período. Como contraponto, citou a própria sociedade da Agroceres PIC com a parceira americana, que completa 50 anos em 2027, como exemplo de parceria de longo prazo baseada em valores e estilos compatíveis.
A conclusão do executivo é que uma entrada direta de capital chinês no setor “é possível”, mas ele não atribuiria peso relevante a esse cenário no momento atual.
Prédios de múltiplos andares: modelo em dificuldade na China
O tema chinês avançou com um relato do próprio Rosa sobre uma viagem recente à China (segundo ele, em setembro, com duração de duas semanas), na qual visitou um dos prédios multiandares usados para produção de suínos e conversou com cinco empresas que planejavam expansão. Segundo o executivo, quatro dessas cinco empresas não pretendiam construir novos prédios; das cinco, três já haviam construído esse tipo de instalação anteriormente.
Rosa confirmou relatos de que esses empreendimentos enfrentam problemas sanitários e operacionais relevantes: separação de fases de produção por andar torna a operação mais complexa, e o investimento em tratamento e escoamento de dejetos é, em suas palavras, “absurdo”. Segundo ele, até o ano passado era comum encontrar granjas novas com frigorífico a um quilômetro de distância, fábrica de ração a 500 metros, e caminhões de transporte de animais sem processo adequado de lavagem entre cargas — cenário que, segundo Rosa, começa a mudar com uma cultura crescente de biossegurança no país.
Segundo o executivo, a razão original para a construção vertical foi a disponibilidade de licenciamento limitada a áreas pequenas, sobretudo em regiões montanhosas sem espaço plano suficiente para galpões horizontais. Ele associou o boom desse modelo a um período em que a margem por animal abatido chegou a US$ 300 a US$ 400, patamar que, segundo ele, não se repete mais no cenário atual.
Escala do rebanho chinês: de fundo de quintal a granjas tecnificadas
Rosa descreveu a transição do rebanho suíno chinês como uma substituição de cerca de 15 milhões de fêmeas criadas em pequena escala (fundo de quintal, com produtividade de 14 a 15 leitões desmamados por fêmea/ano) por um número equivalente de fêmeas em granjas tecnificadas, hoje produzindo em média 25 leitões por fêmea/ano — com granjas mais recentes atingindo até 30. Segundo o executivo, esse ganho de produtividade levou o governo chinês a calcular que o país não precisa mais de 40 milhões de fêmeas para produzir 55 milhões de toneladas de carne, mas sim de aproximadamente 24 milhões a 25 milhões — quase a metade do plantel anteriormente necessário.
Na avaliação de Rosa, a escala do setor chinês ainda passará por forte transformação, e o modelo de prédios multiandares tem se mostrado difícil de sustentar. Para o executivo, o modelo de múltiplos sítios de produção — sem edifícios verticais, mas com unidades segregadas por fase, a partir de plantéis de 10 mil fêmeas — permanece a alternativa mais eficiente para controle sanitário em operações de grande escala, inclusive como referência para o crescimento do próprio setor brasileiro.
Da Redação























