Escassez de soja faz indústria antecipar paradas técnicas. Baixa disponibilidade impulsiona “descolamento” dos preços nos mercados internacional e doméstico.
Oferta apertada
Se sobrou milho no mercado interno em 2009, a ponto de produtores de Mato Grosso terem decidido estocar o grão a céu aberto, a oferta de soja está ainda mais apertada que o usual para esta época do ano. O cenário fez com que muitas indústrias antecipassem em alguns meses as paradas de suas plantas de processamento da oleaginosa, usualmente realizadas no auge da entressafra, entre o último trimestre do ano e janeiro do ano seguinte.
As paradas das indústrias costumam se estender por 30 a 40 dias. Na falta de soja para processar, as empresas utilizam esse intervalo para manutenção das esmagadoras. Neste ano, contudo, a interrupção dos trabalhos ocorre como resposta à escassez de soja no mercado, mas também como forma de administração dos estoques do grão que já estão nas mãos das indústrias.
Entre junho e julho, em intervalos médios de uma semana a dez dias, o esmagamento foi interrompido nas plantas da Comigo em Rio Verde (GO), da Brejeiro em Orlândia (SP), da Clarion em Cuiabá e nas unidades da ADM em Joaçaba (SC), Uberlândia (MG), Rondonópolis (MT) e Campo Grande, apurou o Valor. A Bunge havia programado para este feriado prolongado o início de um período de interrupção de esmagamento em sua planta de Campo Grande. Não por acaso, a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) informou na sexta-feira (04/09) que foram processadas 2,135 milhões milhões de toneladas de soja em julho, o volume mais reduzido para o mês de julho desde 2000.
Leia também no Agrimídia:
- •Poder de compra do avicultor em São Paulo reage em abril após queda no milho e farelo de soja
- •Suíno vivo acumula queda histórica de 32,8% em 2026 e atinge menor patamar da série iniciada em 2002
- •Vigilância sanitária comprova ausência de Influenza Aviária e Newcastle no Tocantins
- •Argentina é declarada livre de Influenza Aviária H5N1 após controle de foco
Em Mato Grosso, maior Estado produtor de soja do País, foram colhidas 17,44 milhões de toneladas do grão na safra 2008/09, segundo o Instituto Mato-Grossense de Economia Agrícola (Imea). No momento, menos de 3% desse volume ainda estava disponível para venda às indústrias, segundo Seneri Paludo, superintendente da entidade. “O aperto [na oferta] é normal, mas está bem maior neste ano”, diz.
Parte dessa maior que a habitual escassez de soja ocorre por conta da quebra da safra argentina. O país vizinho teve perdas expressivas em suas lavouras por ter enfrentado na temporada 2008/09 sua maior seca em pelo menos 50 anos. Isso fez com que o Brasil tivesse que responder por parte do abastecimento de soja que originalmente ficaria a cargo da Argentina. O ritmo de exportações acelerou-se no primeiro semestre – em abril, maio e junho, os embarques brasileiros do grão bateram três recordes mensais sucessivos.
A China, grande vetor da demanda pelo grão, não reduziu a voracidade de suas compras, o que também ajuda a explicar a escassez ainda mais acentuada de soja no mercado interno – e a antecipação das paradas das esmagadoras. “Em julho e agosto eles diminuíram o ritmo de compras no Brasil, mas aumentaram nos Estados Unidos”, diz Daniele Siqueira, analista da Agência Rural. De forma antecipada, os chineses compraram, até o dia 27 de agosto, 8,8 milhões de toneladas da soja a ser colhida na safra 2009/10, segundo dados apresentados pela analista. Há um ano, esse volume de compras havia sido de 4,6 milhões de toneladas.
Outra evidência de aperto na oferta de soja é a disparada do chamado prêmio de exportação. Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, o prêmio para embarques em Paranaguá atingiu, em agosto, US$ 2,50 por bushel para entrega no mesmo mês. Foi o nível mais elevado já atingido pelo prêmio desde que o Cepea iniciou a série histórica do indicador.
Na última quinta-feira, o prêmio para entrega de soja em setembro chegou a US$ 1,80, exatamente o triplo do registrado um ano antes – quando, reitere-se, também vivia-se a entressafra. O prêmio é pago como uma forma de “estímulo” à exportação e varia conforme a oferta do grão: quanto menos soja à disposição para vendas, maior o prêmio. Ele tem como referência a cotação do grão em Chicago. Na última sexta-feira, os contratos de soja para novembro recuaram 19,50 centavos de dólar, para US$ 9,22 por bushel (medida que equivale a 27,2 quilos).
Também em virtude da pouca disponibilidade de soja no mercado interno, ganha força um quadro que já se verifica há pelo menos dois meses, o “descolamento” dos preços nos mercados internacional e doméstico. Na bolsa de Chicago, referência internacional para a formação de preços agrícolas, a cotação dos contratos com vencimento mais longo está abaixo da dos contratos mais curtos. No mercado interno, os preços do grão apontam para cima.
Em seu relatório mais recente sobre a oferta e demanda de grãos, de agosto, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estimou em 24,6 milhões de toneladas as exportações de soja em grão no ciclo 2008/09. “Até agosto, já exportamos mais de 25 milhões de toneladas, e ainda faltam quatro meses para o ano acabar”, diz Eduardo Godói, da Agência Rural.





















